Doce veneno do escorpião – Bruna Surfistinha – Diário de uma garota de programa

“Como o colégio Dante Alighieri ficava perto da casa onde trabalhava, já deu para imaginar quantas virgindades ‘desapareceram’ por lá… Os moleques iam em turma. Ligavam de um orelhão para saber se não tinha risco de aparecer polícia. A gente deixava a porta entreaberta e eles entravam correndo. Eu, com 17 anos, subindo com moleques de 12, 13 ou 14 anos. Que estranho: eu, que era inexperiente, estar na cama com alguém ainda mais inexperiente! Mas acabava sendo natural. Só quando chegávamos ao quarto alguns deles confessavam ser virgens. “Você não conta para os meus amigos que é minha primeira vez?’ Ensinava como abrir o primeiro sutiã da vida deles. Ligava o som e conduzia meu show. “Alguns foram alunos brilhantes”

Bruna Surfistinha

O DOCE

VENENO DO

ESCORPIÃO

O diário de uma garota de programa

Depoimento a

Jorge Tarquini

7ª impressão

Copyright © 2005 Bruna Surfistinha

Supervisão editorial Marcelo Duarte

Assistente editorial Tatiana Fulas

Projeto gráfico

Luciana Porto Alegre Steckel

Diagramação

Divina Rocha Corte

Preparação de texto Alessandra Miranda de Sá

Revisão

Ana Maria Barbosa Cristiane Goulart

Foto da capa Carol do Valle

CIP-BRASIL CATALOGAÇÃO NA FONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ.

Surfistinha, Bruna

O doce veneno do escorpião / Bruna Surfistinha. – 1.ed. – São Paulo : Panda Books, 2005

1. Surfistinha, Bruna. 2. Prostitutas -Biografia. I. Título.

05-2960. CDD 920.930674 CDD 929:392.65

2006

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Interfone. Ele chegou! Deixei subir. Enquanto ele pega o elevador, checo os últimos detalhes: cabelos escovados, pele cheirosa, boca pronta para o que der e vier. No quarto, a cama à espera, a luz bem leve. Para completar o clima, coloco um CD (se ele for chato, toco baladinhas, techno, para agitar um pouco;se for legal, prefiro Jota Quest, Emerson Nogueira, uma coisa mais romântica). Visto uma saia bem curta e provocante, com um top que valoriza meus seios. Tudo fácil de tirar. Ou de ser tirado. Calço sandálias bem altas. Não que me importe de ser baixinha. Faz parte do meu charme. Toca a campainha. Atendo.Ele entra. Me beija no rosto e se apresenta, já que é sua primeira vez comigo. Mesmo sem precisar, faço o mesmo. Pego ele pela mão e o levo até o sofá. Emclima de namoro, a conversa começa e logo ruma para a putaria.

“Hoje, quero te pegar de jeito, por trás.”

“Mas você quer minha bu… ou meu c…?”

“Eu quero tudo”, ele responde no meu ouvido enquanto passeia sua mão pelas minhas coxas.

Sua boca ofegante roça o meu pescoço; sinto a barba por fazer, enquanto com minhas mãos entre suas pernas sinto o mundo virar pedra. Com um puxão dele, o top desliza e meus seios pulam para fora. Como quem descobre um novo brinquedo, deixo que ele segure firme, mas com carinho. O bico do meu seio fica intumescido com aquela língua atrevida passeando pela auréola. Sinto sua respiração quente, ofegante. Lambe um seio, depois o outro, junta os dois com as mãos, querendo encher a boca como um garoto guloso. Na confusão de roupas tiradas com pressa, ele puxa minha calcinha e desce com a boca até o umbigo. Pára. Me olha com um jeito sacana.

“Você quer que eu te chupe?”

Quero.”

“Agora ou depois?”

“Você é quem sabe… A língua é sua.” “Mas a bu… é sua.”

“Então, quero agora.”

Gozei muito, sem precisar de nenhum esforço interior. Foi bom de verdade. E estava só começando.

Subimos a pequena escada de caracol do meu flat direto para o quarto. E ele já foi “encapotando” o p…, para aproveitar o meladinho da bu…, e engatamos o mais comportado papis e mamis.

“Cavalga em cima de mim.”

Primeiro, montei de frente e, com ele todinho dentro de mim, me virei de bumbum para ele. Não demorou muito até que ele saísse de mim e me pedisse para retribuir com a boca a gentileza. Chupei até ele gozar, com ele agarrando com delicadeza meus cabelos longos.

Mal deu tempo de a gente conversar. Ainda com a boca, reanimei o menino. Num 69 alucinado, ele começou a brincar na minha bunda. Isso me excitou. Não resisti e montei. Ele, todo engatado no meu c…, me levantou e me botou de quatro. No fim, pediu para gozar na minha boca mais uma vez.Deixei. O CD chegou ao final quase junto com o nosso segundo tempo.Game over. O fim do CD é o sinal de que a hora que ele tem comigo acabou. Se quiser, pode tomar um banho, pagar o que combinamos por telefone e…

“Até logo.”

Sem ressentimentos. A fila anda. Serviço prestado, pagamento feito (e conferido, de forma discreta, sem ele perceber, claro). Ele foi o primeiro cliente do dia. Tenho mais cinco pela frente. Com menos de uma hora e um banho entre um cliente e outro, mal tenho tempo de me refazer. Prefiro fazer tudo de uma vez, cumprir logo minha meta de cinco programas diários e ficar livre o quanto antes. Hoje, a agenda está funcionando. Quando eu ou o cliente nos atrasamos, o jeito é o próximo que chega ficar lá na recepção, esperando. Até tudo recomeçar.

O ritual da chegada, do check-list do corpo e do quarto assim que o interfone toca é o mesmo para os que virão. O segundo cliente é o tipo de cara bem tímido, que você tem de pegar pela mão e com quem se tem de conduzir a transa. Foi mecânico. Com ele, não consigo gozar, pois a trepada étensa – para os dois. O terceiro, moleque de tudo, tem fôlego (e rapidez) para me comer três vezes. Como é o terceiro programa comigo, batizei-o de coelhinho – mas ele não sabe. Na base da rapidinha, quem não tem tempo de gozar sou eu. Não faz mal: rola afinidade e a gente sempre conversa bastante.

O quarto traz a amante para uma festinha a três. Uma mulher muito interessante – e entendida do riscado. Não era bonita, porém me acendeu. Se eu

não me controlo, e a amiguinha dele também, quase que ele fica na mão”, literalmente. Claro que eu não ia deixar isso acontecer… Enquanto ela me chupava, com ele me comendo, cavalguei gostoso e gozei. Não pela cavalgada, mas pela língua.

O quinto era estilo “homem para casar”. Não rolou química, mas teve muita afinidade. Quarentão, conseguiu fazer uma coisa que eu nunca tinha visto:gozou sem nem tocar no p… enquanto eu chupava o saco dele. Ah, ele me trouxe uma torta de limão. Muito boa. Depois de eu cavalgar um pouquinho, o segundo tempo terminou com ele gozando na minha boca.

O sexto e último do dia quer que eu o leve a um clube de swing. É sua primeira vez em uma casa dessas. Mais um que vou levar para o mau caminho…

Como a noite estava gostosa, e fazia tempo que eu não usava vestido, escolhi um que, na verdade, é apenas um pedaço de pano: tem um decotão na frente e é do comprimento que cobre apenas o bumbum e a bu… Aproveitei para ir com uma sandália de amarrar na perna. Queria arrasar. E, claro, consegui. Eu era a mais gostosa do Marrakesh naquela noite. Mas ele, mesmo depois de bebermos e dançarmos um pouco, não conseguia entrar no clima de suruba.

“Não estou à vontade numa sala com tanta gente trepando.”

Fomos para a única sala onde homens desacompanhados podem entrar. Sentei em um sofazinho vazio e ele começou a me chupar. Do nada, apareceram uns caras. Sentou um de cada lado no sofá e outros dois ficaram de pé, só olhando. Quando ele percebeu o movimento, se assustou e acabamos indo para um quartinho privativo, só nós dois. Como tinha rolado química, nem fiz questão de trocar de casal. Ele também não quis. Rolou a noite toda. Chupeta, espanhola, beijo grego… Sempre que vou num swing, fico excitada com a chance de, numa dessas trocas, ficar com uma mulher interessante. Hoje, para sorte do meu cliente, só havia tiazinhas. Nada contra as tias, só que não me dão tesão. Quase rolou com um quarentão que me puxou, mas ele estava desacompanhado. Mesmo que não tenha rolado de eu chupar nenhuma bu… ou de ter trocado de casal, a madrugada valeu muito. Cheguei em casa às 5h30 da manhã.

Transas enlouquecidas, surubas, muitos homens (e mulheres) diferentes por dia, noites quase sem fim. O que pode ser excitante para muitas garotas como eu, na efervescência dos vinte anos, para mim é rotina. É meu dia-a-dia de labuta já faz três anos. Trabalhando cinco dias por semana, com uma média de cinco programas por dia – é só você fazer as contas para saber quantas vezes já transei por di nheiro. Por mais que eu chegue a curtir, a gozar de verdade, ainda assim é trabalho. Trabalho que escolhi por não ter outra escolha quando… Bem, é uma longa história. A minha, pessoal, e a da Bruna. Sim, somos duas. Com duas histórias diferentes numa mesma garota: eu.

Raquel, a menina.

Bruna, a mulher

Um desconhecido. Eu dançava sozinha quando esse menino me puxou para um beijo. Minha primeira balada à noite. Nem perguntei seu nome. Meu primeiro programa de “adulto”.

Liberdade aos 13 anos, quase 14. Não fazia nem meia hora que eu havia chegado. Meu primeiro beijo. Ali mesmo, do beijo passamos ao amasso, no meio da pista. Quando

eu menos esperava, ele me largou. Tudo assim, sem sentimento, sem trocar uma palavra. Naquela noite, fiquei com outros dez garotos diferentes. Não bastava um: tinham

que ser vários para me satisfazer. Raquel despertava para o sexo.

Um desconhecido. Mesmo nervosa, eu me apresento com um texto ensaiado ali, na hora: “Sou a Bruna, faço oral, vaginal e anal”. Completei dizendo minha idade falsa,

“18 anos”, sem saber que nenhuma garota faz disso marketing pessoal.

Ninguém podia saber que era meu primeiro programa. Fazia apenas meia hora que eu havia saído da casa dos meus pais para chegar àquela nova casa.

Minha estréia aos 17 anos. Não diria àquele estranho que nunca tinha feito sexo por dinheiro. Ele me escolheu, de cara. Eu queria sumir, sair correndo e voltar para

a casa dos meus pais. Em vez disso, subimos para o quarto. Penso na minha mãe. Um estranho me toca e quer transar sem camisinha. “Ela deve estar sofrendo.” Não deixo ele me tocar. Depois de ele brincar de ginecologista comigo, enfiando seu dedo e cheirando para saber se estava “tudo bem”, me penetrou com camisinha. Eu só pensava: “Vou pegar o dinheiro desse cara e voltar para casa. Ainda dá tempo de desistir e ir embora”. Acabei fazendo seis programas naquela tarde. Nunca mais voltei para casa. Nunca mais vi meus pais. Bruna nasceu para o sexo.

Pouco mais de três anos separam esses dois momentos tão distantes um do outro. No primeiro, Raquel mudava da água para o vinho, da meiga filha mimada para uma adolescente sem freio, mentirosa. Havia treinado muito beijo no espelho do banheiro, na laranja, no braço, sempre confiante nas dicas das revistas de meninas. Ao vivo, tinha

sido muito melhor. No segundo, achei no meu corpo, entre as pernas, a chave da liberdade e o meu ganha-pão, mesmo que isso significasse mentir minha idade e colocar em prática, por cem reais o programa, com quarenta reais de lucro para mim, o pouco que havia aprendido em seis transas com um namoradinho sério e outro ficante.

Na pista da Kripton, em plena Vila Olímpia, a cada noite de balada eu queria mais e mais. Ia de saia bem curta, para facilitar as coisas para quem quisesse sentir com as mãos o que a quase escuridão não deixava mostrar. Se não transei bem ali, se não quis perder no meio da pista minha virgindade, não foi por falta de oportunidade. O prazer que experimentava ao sentir o pênis do garoto, duro por minha causa debaixo das calças, me roçando aqui e ali, era quase irresistível. Quase…

Abri muito zíper de garotos na pista mesmo, só para baixar sua cueca e puxar seu pênis um pouco para fora para brincar. Não tinha a menor idéia de como masturbar um homem, até que um deles me pediu, com todas as letras: “Bate uma pra mim”. Sem saída, disse a verdade: “Não sei”. Encostados em uma parede próxima da pista, comigo, sem graça, ouvindo seu riso sacana, ele pacientemente pegou minha mão e me ensinou o movimento. Dali para a frente, só não fiz isso com quem não quis. É fantástico fazer um cara gozar, sentir prazer. Comecei a punhetar todos com quem ficava enquanto dançava. Ninguém à volta percebia, pois muitos estavam ocupados fazendo exatamente a mesma coisa que eu e meu ficante da vez. Cheguei mesmo a ver muitos casais transando de verdade nos sofás. Com os seguranças do lugar, não havia problemas: se pegassem um casal mais atirado ou exibicionista, pediam apenas para maneirar.

Nunca transei na balada. Houve muitas oportunidades, mas nenhuma coragem. Para perder a virgindade, teria que ser com alguém especial. Sou romântica. Não que isso

me impedisse de começar a deixar que os garotos me tocassem mais intimamente. Sob a saia bem curta, abaixava um pouco minha calcinha e, só com o contato das mãos entre minhas coxas e na minha vagina, ficava super- molhada. Achava que aquilo era gozar. Só depois descobri que “chegar lá” era mais, muito mais – e melhor. Aprendi que o gozo, para mim, começa com um friozinho na barriga. Mesmo assim, não queria transar.

Cheguei muito perto de ir até o fim algumas vezes. Por duas vezes, entrei no carro, eu e meu ficante tiramos nossas roupas, fizemos de tudo e eu fui até onde conseguia. E olha que já era bem longe. Na hora de transar de verdade, de ser penetrada, ficava arrependida e com medo.

“Eu preciso ir embora.”

“Agora que a gente tá no embalo?” “É que meu pai vem me pegar daqui a pouco.

“Ele espera”, dizia o outro, já com o pau duro para fora da calça e as mãos parecendo dois polvos, cheias de dedos em cima de mim.

“Não dá.”

“Mas você já tá quase pelada, já fizemos quase tudo. Só falta o principal…”

“Vai ficar faltando, me desculpe.”

Sempre arrumava uma desculpa e caía fora. Para o garoto, mais velho e maior de idade, eu seria apenas “mais uma”. E eu não queria ser apenas “mais uma”. Me sentiria usada. Ainda restava um pouco de razão na minha cabeça romântica. Transar ali para nunca mais ver o cara? Não era meu ideal de primeira vez. Sem falar no medo da dor e do sangramento do qual falavam as revistas de adolescentes. Achava que sangraria horrores, como uma torneirinha de sangue.

No fundo, era inexperiência mesmo. Sem querer confessar ser virgem, e igualmente sem coragem para pedir uma camisinha, me imaginava no lugar de uma amiga que engravidou aos 15 anos. Ela nem sequer sabia quem era o pai da criança. Mãe, quem é o meu pai?” “Não sei, filho E eu sei bem o que significava esse tipo de diálogo.

No meu primeiro dia na casa da Franca, a última coisa que eu queria era que descobrissem minha falta de experiência. Cheguei lá pelas duas da tarde, depois de ter caminhado desde o Paraíso, onde morava, deixando para trás tudo o que tinha: mãe, pai, quarto, roupas. Carregava um fichário e a mochila do colégio com poucas roupas e muitos biquínis para usar no meu primeiro emprego. Perda de tempo: nenhuma das garotas trabalhava de biquíni.

Sem roupa decente para trabalhar, as outras garotas me arrumaram umas coisas horrorosas. Justo eu, que sempre me expressei pelo uso de marcas de grife, que compensavam minha gordurinha e minha síndrome de patinho feio. Tive de me conformar. Sabia que um dia ganharia meu dinheiro e compraria tudo outra vez.

A cafetina da casa da Franca, Larissa, foi a única para quem disse uma parte da verdade. Ela me pediu o RG, e não tive como esconder: eu só tinha 17 anos. “Não diga

nada a ninguém sobre isso”, ela me aconselhou.

Por mais que tentasse bancar a experiente na frente das outras garotas, de cara dei bandeira:

“Com que nome você trabalha?”, perguntou Larissa.

“Raquel”, disse, sem um pingo de malícia.

“Nenhuma garota de programa usa seu nome de verdade. Aqui, vai ter de trocar.”

“Você combina com Bruna”, disparou a Mari, que acabou virando uma boa amiga.

Não me lembro por que, quando foi ou quantos anos eu tinha, mas não esqueço que cresci com a história de ser adotada na cabeça. Quando tinha cinco anos, perguntei à minha mãe. Diante da resposta positiva, não tive coragem de perguntar o que significava, afinal, adoção. Levei minha dúvida para a professora da escola, que me explicou que as pessoas adotadas foram bebês abandonados em um lugar porque a mãe não podia ou não queria criar. Depois disso, vem um casal e escolhe uma dessas crianças para a adoção. “Escolhe?” Me senti um objeto. Por mais que meus pais sempre tivessem me tratado como filha, foi difícil não me revoltar, mesmo que guardasse isso só para mim. Pô, filho era o que nascia da barriga. Só comecei a aceitar o contrário bem mais tarde. Talvez tarde demais.

Tentava levar tudo numa boa, pois tinha mesmo uma família. Mas sempre vinha alguém e comentava que eu era muito diferente das minhas irmãs mais velhas e da minha

mãe. Ela é bem européia, pele clarinha, cabelos e olhos escuros, traços delicados. A gente só se parece na altura: ela é tão baixinha quanto eu. As vezes, até trocávamos algumas roupas, uns casacos. Mas as semelhanças ficavam por aí. Minhas duas irmãs, ao contrário, são iguaizinhas à minha mãe.

Mesmo um tio meu jamais me tratou como sobrinha. Para os que não conheciam meu pai, a desculpa era: “ela puxou a ele”. Nem na sombra: ele tem 1,92 metro, é gordo,

branquinho… Em alguns momentos, para me defender desse preconceito, dessa agressão, minha mãe mentia para os desconhecidos, inventava algo para me resguardar.

Quanta inveja eu senti das minhas amiguinhas que se pareciam com seus pais, com sua família de verdade! A raiva ia dos meus pais biológicos para os adotivos. Quando brigávamos, eu os chamava de tio e tia. Coitada da minha mãe… Mas eu não tinha maturidade nem estrutura para lidar com isso sozinha.

Com sete anos, em 1991, voltamos todos para Sorocaba, local de origem da minha família adotiva também. Ou melhor, nos mudamos para nossa chácara, em Araçoiaba da Serra. Meu pai havia sofrido um acidente e tivera de parar de trabalhar. Um dia, na garagem do prédio, se abaixou para pegar alguma coisa e, quando levantou, bateu a cabeça numa viga mais baixa do teto. Aquela pancada afetou seriamente seu cérebro, nem sei explicar como. Só quando o vi desmaiado pela primeira vez, no meio da sala, senti o quanto era grave. Quando meu pai viu que não tinha como continuar trabalhando, no auge de sua carreira de Direito, se abateu, ficou muito deprimido. Foi melhor mesmo a gente se mudar para a chácara.

Apesar de ter sido uma fase muito tensa e difícil com a doença do meu pai, não tenho do que me queixar: enquanto era poupada, sempre que possível, do clima de doença, brincava muito, inclusive com minha mãe e, às vezes, até com meu pai. Ele pendurou uma tabela de basquete no quintal, no meio das árvores de frutas, e eu passava horas treinando, sonhando em um dia ser uma profissional. Com minha altura, seria mais um sonho do tipo impossível…

Para mim, todas as prostitutas de São Paulo estavam na Augusta. Eu já havia passado por lá muitas vezes, inclusive com meus pais. “Olha lá aquelas putas , alguem

comentava. Como é que uma mulher chega nesse ponto?”, eu pensava. Para mim, só tinha putas ali, naquela rua suja, feia. Ou, então, elas viviam naquelas casinhas

velhas, caindo aos pedaços, com mulheres muito maquiadas penduradas

nas janelas, chamando os homens que passam pela rua. Lá dentro, bastava elas abrirem as pernas e esperarem o cliente gozar: pronto. A tal “vida fácil”. Garota de

programa seria assim, também? Não pelos anúncios de jornal. “Você, menina de 18 a 25 anos, atenda a executivos ganhando no mínimo mil reais por semana.

Nas semanas anteriores à minha fuga, quando já estava decidida a sair de casa, comprei jornais para ver os classificados e cabulei aulas para visitar muitos desses

lugares: boates, privês, casas de massagem. Não vi nada que se aproximasse daquela imagem bagaceira da Augusta, muito menos das mulheres acabadas. A maioria dos

lugares, como o Bahamas, era de bom gosto, elegante mesmo. Por fora, você nem se toca do que é lá dentro. Casas que encheram meus olhos. As garotas que vi por lá

não tinham nada de anormal, não tinham “puta” estampado na testa nem ficavam na porta se oferecendo a quem passasse.

O privé da alameda Franca, nos Jardins, foi a minha escolha. Eu não sabia fazer nada, nem tinha experiência ou segundo grau completo. Para sair de casa, teria que

pagar para ver – e ganhar os tais mil reais pelo que fizesse. O preconceito foi embora e eu disse:

Vou ter que ser isso . E, confesso: fantasiei muito com a possibilidade de ter vários homens e comecei a gostar da idéia. Afinal, só tinha transado seis vezes, de modo bem mecânico, e nunca tinha visto um filme pornô na minha vida. Ia ser a chance de descobrir até

onde o sexo podia me levar.

Isso: abre bem as pernas.”

Está bom assim?

“Deixa o doutor examinar essa boceta, para ver se está tudo certinho.”

Vem um dedo, depois outro, que ele tira e cheira. Hummm, você passou no exame

médico.

Após estrear com o “ginecologista”, que dizia ter certeza de que a garota não estava doente apenas cheirando seus dedos depois de enfiá-los nela, a ilusão de “abrir

as pernas e pronto” não resistiu. Nem a fantasia de ter muitos homens diferentes, pois pensava na minha referência de homem. Mas foi bom ter tido um “tratamento

de choque” para ver se queria mesmo ter minha independência.

Foi difícil estar na cama com uma pessoa estranha,:

mesmo que fosse o ajeitadinho metido a ginecologista. Imagine, então, subir com um velho japonês de sessenta anos, gordo, imenso. Ele foi o meu segundo. Nunca pensei

na vida em pegar um cara assim. No entanto, ele me pegou – e me pagou. Para dizer não, teria de pagar à casa o que o cliente

pagaria pelo programa. Esse era o acordo. Fiz minhas contas: para ganhar cem reais, tinha de fazer três programas. Ser escolhida, e não escolher. Não é à toa que

tanta garota de programa cheira cocaína e puxa muita maconha. Senti isso na pele. Cheirando e fumando.

O japa foi tirando a roupa, e eu só pensando em dinheiro. Tinha uma hora pela frente com aquilo. Ele era mais velho que meu pai! Só pensava em fazer ele gozar logo

para acabar de uma vez com aquilo. Chegamos a conversar um pouco. O pau não subia; eu chupava, esfregava, e nada. Veio um monte de sensações, cheiros, coisas que

eu não queria sentir. Fingia para mim mesma não sentir. Ele passava a mão em mim. Não gostei.

Até hoje, às vezes, tenho nojo de ver uma mão fazendo carinho no meu corpo. Faço neles, mas nem sempre curto receber. Só transo ouvindo música, que me ajuda a divagar,

a entrar em outra sintonia (além de o CD durar exatamente o tempo do programa, o que me ajuda a controlar a hora trabalhada). Há vezes em que imagino outro homem

ali, um namorado. E olho para o lado, só para não ver a mão passeando por mim, pela minha intimidade. É uma questão de pele. Mas fui em frente e consegui fazer o

japonês ficar de pau duro. Não sabia o que era pior.

Botei nele uma camisinha, fiquei por cima dele, cavalguei, ele me comeu e, claro, não foi bom. Foi mais do que mecânico. Nesse dia, cheguei a chorar com outro cliente.

Para todos que me comeram naquele dia, contei que era meu primeiro dia como garota de programa.

Todo mundo sempre se dá algo para compensar um dia ruim, uma semana difícil. Com garotas que vivem do sexo, não é diferente. “Eu mereço!”, pensei. Com o primeiro

dinheiro de putaria que consegui ganhar e juntar, me dei um celular de presente. Me senti recompensada, de alguma maneira, por cada vez que engoli meu nojo para

não perder o programa. É engraçado, mas nunca senti nojo do cara antes de chegar na cama, qualquer que fosse sua aparência. É só quando chega lá, mesmo. Não por

algo que o cara tenha no corpo, um defeito ou uma cicatriz (embora tenha minhas preferências…). O que me pega é o cheiro. O cheiro do corpo. Tem homem que toma

banho e não adianta. Tem os que chegam com bafo, também. Esses são os piores. Por isso beijos são uma coisa delicada. Eu não beijo todos. E nem todos querem beijar.

Os carentes são os que mais beijam. Só que, mesmo não estando a fim, tenho de beijar. E vai do jeito que dá, meio sem vontade. Eu não tenho muita escolha. Faz parte

do meu negócio. Então respiro fundo e vamos lá.

Os pouco mais de três anos que vivemos na chácara chegavam ao fim. Meu pai já estava bem

melhor das seqüelas do acidente e eles decidiram que seria importante para

minha educação voltar para São Paulo. Afinal, eu iria para a quinta série em 1995. Minha irmã mais velha já havia se mudado para Cajuru, próximo a Ribeirão Preto,

por causa de trabalho. A do meio estava morando em nosso apartamento. Por isso, meus pais compraram um novo para nós, no mesmo bairro. Cada um teria seu canto. Realmente

moderno, levando em conta os conceitos morais dos meus pais: uma morando no interior e a outra morando sozinha. Se fosse verdade que os mais velhos amolecem as coisas

para os mais jovens, não teria com que me preocupar.

Com a mudança, tive de deixar para trás uma bóxer, Lunna, minha preferida, o weimaraner Fedra e o Paco, um vira-lata. Porém, o mais importante deixado lá foi um

pedaço da minha infância, da minha felicidade. Voltar para São Paulo, por mais que eu amasse

a cidade, virou um tormento. Meus pais tinham medo de assalto, de estupro,

de tudo. E me prendiam. Para quem foi criada solta, brincando na rua ou no quintal, era a morte ficar presa naquele apartamento no

Paraíso,já tinha 11 anos e queria fazer do mundo o meu quintal. Minhas amigas começavam a ir ao shopping, às matinês dançantes, e eu não podia. Sem liberdade, passei a mentir

para

ir onde queria.

Minha mãe tinha ciúmes de mim. E demonstrava isso. Nem namorar, mesmo que fosse o carinha mais perfeito do mundo, eu podia. já meu pai… Ele nunca fez seu papel

de pai. Tudo bem, teve o acidente, a doença, ele deixou sua carreira brilhante

bem no topo, viveu uma depressão fodida. Hoje sei que, muitas vezes, ser agressivo comigo era culpa de tanto

remédio tarja preta que ele tinha que tomar. Se antes

eu o culpava, percebo agora que não foi bem assim.

A tal fase de adolescente rebelde que o excesso de proteção desencadeou ficou quase fora de controle, e as brigas, principalmente com meu pai, viraram rotina. Quase

sempre pensava em sair de casa ou ir atrás dos meus pais biológicos para saber se eles me queriam de volta. Se a razão para me abandonar fosse financeira, não haveria

problemas. Eu trabalharia, me bancaria. A única direção que poderia me ajudar na busca dos meus verdadeiros

pais estava em Sorocaba, onde nasci e fui adotada. Mas, na verdade, nunca fui atrás.

Eu estudava no colégio Bandeirantes, tradicional e superpuxado – tanto que, quando passei com

muito

sacrifício, mas sem recuperação, para a sexta série, fiquei na última sala da turma, a 6s4. Quem estudou já sabe bem o que essa pecha significa… Meus pais,

no entanto, estavam orgulhosos de mim, mesmo assim. Se por um lado eu queria liberdade, e mentia muito para consegui-la, por outro ainda tinha meus próprios preconceitos

e dúvidas. E bancava a boa filha.

Minha irmã do meio, que hoje tem 30 anos, começou a namorar um rapaz que meus pais não aprovavam. Ela

já morava sozinha. Bem… Digamos que nem sempre. Minha mãe

descobriu esse pequeno detalhe. A pressão para que terminasse o namoro foi grande e ela não teve dúvida: desapareceu com o cara. Vi o sofrimento dos meus pais com

essa situação. Eu não podia ficar indiferente a isso. Quanta raiva senti da minha irmã. O quanto rezei para que meus pais não sofressem tanto… Acho que foi a única

vez na vida em que rezei pedindo alguma coisa, e nem era para mim. Eu sempre agradeço

pela proteção e só. Acho que Deus não faz nada por nós, além de nos proteger.

Mas eu queria que Ele fizesse por meus pais. Mal sabia que eu mesma, dividida entre a censura à minha irmã e o desejo de liberdade, apertaria o botão de replay nessa

história.

Quando o romance da minha irmã acabou, pelo visto por decisão do rapaz, ela voltou para nossa casa

deprimida, quase doente, falando em morte e tudo o mais. Meus pais não passaram a mão na cabeça dela, dizendo “filhinha querida, nós te amamos tanto”. Deixaram claro

que queriam que ela sentisse a dor dos seus próprios erros. Eles a ignoravam, não conversavam com ela. E eu seguia o exemplo deles, por mais que minha vontade fosse

abraçá-la, dizer a ela que estava tudo bem.

Lembro o dia em que vi minha mãe conversando seriamente com ela. Eu já conhecia aquela expressão:

mamãe ficava vermelha, seus olhos secavam, ficavam sem brilho nenhum.

Sua fala era calma, mas num tom de voz estranho, que não deixava dúvidas a respeito da seriedade

de suas palavras. A testa franzia de maneira diferente, exibindo rugas que só apareciam quando ela estava brava. Era pior do que apanhar – por mais que nunca tivesse

recebido um tapa sequer. No final, claro, viram a seriedade da coisa e a apoiaram. E lá foi minha irmã para o psiquiatra. Comigo foi a mesma coisa. Por que não falavam

conosco? Por que nossos problemas tinham de ser resolvidos com estranhos? Eu queria falar, mas com eles. Não discordo do método que usaram, pois talvez não conhecessem

outro. Com meus filhos, no entanto, acho que farei diferente quando a hora chegar.

Sempre imaginei que a primeira vez para uma menina tivesse mais peso do que para um menino. Estava enganada. A cada cabaço que tiro, fico mais e mais convencida

disso. Tudo bem que, no futuro, eles nem se lembrem direito com quem foi (difícil, no meu caso…), mas a sensação de estar frente a frente com uma mulher, poder

tocá-la, ter nas mãos, em vez de uma revista com fotos de mulheres peladas, uma de carne e osso… Finalmente, descobrir a consistência de um seio, aprender como

pegá-lo, passear com a mão na gruta de prazeres escondidos que toda mulher carrega entre as coxas. Poder cheirar, lamber. Sinto alguns deles, nos seus 13, 14 anos,

trêmulos diante da nudez. Posso quase ler seus pensamentos. “Posso pegar?”, é o que mais ouço deles, querendo apalpar meus seios. Mãos geladas, geralmente. Sinto

no ar o medo de falhar . Ou da comparação com o pau de outros caras. Ou ainda de, quase morto de ansiedade, gozar sem nem ao menos completar o que está fazendo

ali. Conduzo, ensino, realizo. Me sinto especial. De certo modo, estarei para sempre na memória de cada um daqueles meninos – tão “crianças” quanto eu. E foram muitos.

Como o colégio Dante Alighieri ficava perto da casa onde trabalhava, já deu pra imaginar quantas virgindades “desapareceram” por lá… Os moleques iam em turma.

Como não podia entrar menor de idade (mas eu já trabalhava lá, claro), ligavam de um orelhão para saber se estava tudo certo, se não tinha risco de aparecer polícia. Eles vinham num bando enorme,

embora fosse tudo com muito respeito, sem zona. Parecia uma excursão gigante, com os garotos usando as calças de agasalho azuis com a faixa amarela e a camiseta

básica de malha com o nome do colégio estampado no peito. Vestidos assim, pareciam ainda mais crianças. A gente deixava a porta da casa entreaberta e eles entravam

correndo. Todas nós adorávamos aqueles meninos. Eles não iam lá para zoar e gastavam bem.

Eu, com 17 anos, subindo com moleques de 12, 13 ou 14 anos. Muitos eram clientes freqüentes, a maioria era virgem. Que estranho: eu, que era inexperiente, estar

na cama com alguém ainda mais inexperiente! Mas acabava sendo natural. Nessa idade, os meninos são meio afoitos. No começo, foi estranho, difícil até. Mas eu me

acostumei. E descobri como fazer eles relaxarem e irem até o fim. “Devagar.” “Tá machucando?” “Sim, faz assim, ó.” Não há cartilha que substitua uma boa professora…

Acabava sendo quase sempre a escolhida. Afinal, não parecia tão mais velha do que as meninas por quem eles já tinham batido muitas punhetas, sus-

pirando de paixão. Subia com o garoto. Só quando chegávamos ao quarto alguns deles confessavam ser virgens. “Você não conta para os meus amigos que é minha primeira

vez?” “Não tenho por que contar , respondia. Nunca ri de nenhum deles. Eu, rir da inexperiência? Ensinava como pegar nos meus seios, deixava que me despissem, que

me tocassem, me cheirassem, que vissem de perto como era “a diferença”. Ensinava como abrir o primeiro sutiã da vida deles, aquele que ninguém esquece. Ligava o

som e conduzia meu show. Alguns foram alunos brilhantes.

Gostava de despir o uniforme do menino bem devagar. Era fácil tirar aquelas calças de agasalho, que deixavam ver, antes de tudo, um volume característico entre as

pernas. Segurava nos seus paus bem duros, sem querer, no entanto, que gozassem sem fazer nada. Na primeira vez, o risco de isso acontecer, por causa da ansiedade,

é sempre alto. Então, começava chupando, para ajudar a relaxar. Acho que, quando chupo um garoto, ele curte mais do que meter de verdade. E, claro, eles adoram.

Que tara, não? Com esses meninos, só de ir com a cara, deixei muitos botarem na minha boca sem camisinha. Acho que ensinei bem muitos deles. E foram, quase sempre,

transas tranqüilas. Nada de malabarismos. Papis e mamis bem gostoso. O negócio deles é meter e curtir. As fantasias e variações só vêm com o tempo. Com os mais experientes, não é bem assim.

Eu fazia de tudo para manter a fama de “santinha” com meus pais. Voltava da balada e comentava com eles apenas o quanto havia dançado. Uma noite, porém, cheguei

em casa com o pescoço bem marcado das chupadas do Thiago, um menino com quem fiquei várias vezes. Nunca namoramos porque, quando o vi no claro, a beleza que a escuridão

sugeria não dava nem sinal de existir. E também não queria mais machucar os lábios com nossos beijos. O fato de nós dois usarmos aparelho fixo era mesmo torturante.

Mas o roxo das chupadas estava lá. Não houve maquiagem que desse jeito. E olha que eu tentei.

Mamãe percebeu, claro, e me obrigou a ir à escola no dia seguinte com uma blusa de linho que cobria o pescoço. Esforço inútil: passei o maior calor e os hematomas

não foram escondidos Não tive vergonha, não. A fama de galinha no colégio pouco me importava. Era como se eu fosse um menino. Para eles, ter fama de galinha era

sinal de macheza. Para mim, era um troféu, a prova de que alguém me

desejou numa noite Uma noite de sexo selvagem, quem sabe? Eu sabia da verdade. Eles, não. Esse era o grande barato. Foi o meu jeito de chamar a atenção de todo mundo.

Eu, uma garota de 13 anos, cheia de espinhas pelo rosto, ainda meio

gordinha, mesmo com vinte quilos a menos, à base de regime. Nenhum garoto da escola me dava

bola, nem na rua, nem em lugar nenhum. Apenas na noite. No escuro, eu devia parecer bonita. Como me pareceu o Thiago.

Nessas de me auto-afirmar, comecei também a fumar escondida dentro do banheiro do colégio. Fui, sim, uma verdadeira maria-vai-com-as-outras. Eu andava com a turminha

“do mal”. Muitos deles, com 12 ou 13 anos, já fumavam maconha. Eu não queria ser tachada de careta, mas ia ficar só no cigarro de cravo, meu preferido. Que graça

tinha dar uns tragos numa ervinha enrolada num papel fino escondido

pelos becos do Paraíso, em volta da escola, enquanto matávamos aula? Só para ficar rindo à toa e falando merda, coisas sem nexo? Queimei a língua assim que queimei

meu primeiro beck, logo que fiz 14 anos.

Nessa idade, por mais que a gente se ache adulto, no fundo não dá para ter muita convicção das coisas… Quando comecei a fumar, por exemplo, eu não gostava do sabor,

da tontura que sentia, nem sabia tragar direito – e isso era a morte para mim.

“Olha lá a Raquel: não sabe nem tragar Fazer papel de boba no meio da turma? Treinei muito até conseguir esquecer o gosto ruim e a tosse. Tudo para me encaixar no

modelo, ser uma igual aos meus amigos. Igual? Amigos? Esses “amigos” se foram. Os vícios ficaram. E não só esses.

Com bebidas foi mais ou menos a mesma coisa. Eu não gostava do sabor, não via graça lquem me viu e quem me vê…). Um dia, para mostrar que estava por dentro, pedi

para um cara do colegial, mais ve lho

comprar uma latinha de cerveja que entornei de uma vez para não ter de sentir muito o gosto. Pedi outra e mais outra, também devidamente viradas em um gole só. Depois

da terceira, tudo estava girando. Entre a euforia e o calor da bebedeira, tinha o medo de que algum paisana, um daqueles seguranças do colégio que ficavam disfarçados

rondando

a vizinhança para pegar alunos fazendo bobagens,

me desse um flagra.

Todo esse esforço para ser cool, fumar, beber e badalar começou a se refletir nos meus boletins que, quando eu não conseguia interceptar nas correspondências

com a ajuda do porteiro do prédio, misteriosament

chegavam às mãos da minha mãe. Lá estavam as faltas )que eu sempre tentava justificar dizendo que o professor não ouvia minha voz dizendo presente) e as notas a

cada dia piores, mais

difíceis de explicar. Nada disso, porém, me impediu de continuar mentindo e aprontando.

Para compensar a bandalheira, não podia dar bandeira com as notas da escola. Como cabulava todo dia, e não conseguia entender nada das matérias pelos livros, comecei

a colar. Os exames das diversas séries, no Bandeirantes, são impressos em papéis coloridos. Simples: eu comprava papéis da mesma cor das minhas provas e, em casa,

copiava neles a matéria que eu achava que cairia. A idéia não era minha: vários alunos do Bandeirantes faziam isso. Eu, para variar, só acompanhei a massa. Quando

o professor não estava olhando, enfiava essa folha no meio da prova. Perfeito!

A tática funcionou comigo até a última prova do ano, de História. Só precisava de um ponto para passar, mas caí em tentação. E também nas garras da professora. Expulsa

da sala, no caminho para casa, andava meio atordoada, assustada com o que meu pai diria ou faria, e quase fui atropelada. Antes tivesse sido. Enrolei muito para

subir. Toquei a campainha. Meu pai abriu a porta. “E aí, filha, como foi na prova?” Desandei a chorar. Para minha surpresa, ele me abraçou. Comecei a chorar ainda

mais, agora de vergonha. “Se souber, o senhor vai querer me matar.” Contei a verdade, esperando sentir sua mão me batendo. Nem sei por que: ele nunca havia encostado

sequer um dedo em mim.

Ele só quis saber o que me levou a isso e me fez prometer nunca mais colar. Essa não seria a única surpresa, nem a única lição que tirei daí.

No dia em que minha mãe foi chamada ao colégio para conversar com a professora, esta disse que era normal os alunos colarem. E que minha cola estava muito grande.

Rindo, mostrou aquele papel enorme. “Você tem que aprender a fazer umas menores.” Não acreditei: ganhei uma lição de “faça você mesmo”. Ela ainda me elogiou, disse

que me daria o tal ponto por eu ter sido uma aluna que não dava problemas. Eu? Que aprontei todas nas aulas dela – isso quando eu ia. A generosidade humana tem caminhos

realmente muito estranhos.

Já estávamos no quarto há quase meia hora. Apesar da rapidez, tanto o primeiro quanto o segundo tempo foram muito bons. Tínhamos mais meia hora, mas o mocinho não

dava sinais de que chegaria a uma terceira gozada. Deitado ao meu lado, os dois nus, ele me pediu colo. Se aconchegou nos meus braços e lá ficou, brincando com os

dedos nos meus seios, deslizando pela barriga e voltando. Foi ele quem quebrou o silêncio. “Eu tenho tesão pela minha própria mãe.”

Gosto de conversar com meus clientes. Converso muito e eles acabam se abrindo comigo. Já ouvi cada coisa… É o meu lado psicóloga. Queria ser psiquiatra, mas sei

que não conseguiria nunca entrar em medicina. A psicologia está ali, bem pertinho. E é isso que vou fazer, quando voltar a estudar. Material para estudo é que não

vai faltar. Bem, não era esse o assunto. Eu já tinha lido Édzpo, aquele livro que fala do sujeito que sentia atração pela mãe, a Jocasta. Porém, para mim, aquilo

não passava de uma ficção da tragédia grega. Até aquela confissão à queima-roupa. Aquele cara, com sua franqueza, despertou minha curiosidade. Falamos muito sobre

isso e ele me contou que sua mãe engravidou dele muito novinha, com 16 anos. Ele já devia ter uns 44 anos, pois, segundo ele, a mãe estava com 60.

A atração vem da infância (olha que coisa freudiana!). Quando ele era menininho, a mãe ficava andando de calcinha e sutiã pela casa, bem à vontade. Essa imagem ficou

impressa nele. Tomavam banho juntos e tudo. O desejo e a fantasia o acompanharam a vida toda. Mesmo hoje, na idade em que está, o cara é fissurado por transar com

ela. Depois do programa, ele disse que me daria o quanto eu quisesse se conseguisse fazer com que ela fosse para a cama com ele. Dei corda na história e pedi dez

mil reais. Confesso que o dinheiro era tentador, mas não tinha a menor idéia de como convencê-la a dormir com

o filho. Ele me contou como imaginava que seria o

sexo, de como ele ia tirar a roupa dela, cheirar sua

calcinha, lambê-la inteira, as posições. Mil fantasias.

Que continuam só na cabeça dele.

Na lista de “desejos inconfessáveis”, os que mais mexem comigo são os de pedofilia. Um dia, vou casar e ter meus filhos. Tremo com essa possibilidade. A primeira

vez que um deles se abriu (e foram muitos depois dele) eu tinha 18 anos e ainda não tinha colocado silicone (o que aconteceu alguns meses depois do meu aniversário.

Foram 240 mililitros em cada seio, mais pelo trabalho do que por mim mesma. Nunca ouviu falar da “espanhola”? Vou falar disso depois). Meu corpo, naquela época,

era bem de menininha. Parecia que eu ainda tinha 15 anos. Isso, eu sabia, deixava alguns clientes malucos. “Filhinha, vem com o titio, deixa eu comer você. Mas esse,

no meio da conversa, depois do

programa, se confessou pedófilo. Me perguntou se eu não conhecia alguma menina menor de idade, de 13 ou 14 anos no máximo. E nisso também ele não foi o único. Chegou

a me contar como o desejo despertava. Ele sente tesão pela sobrinha de 5 anos. Foi contando e um filminho foi passando pela minha cabeça. Ele coloca a menina no

colo dele, um carinho normal entre tio e sobrinha. E o

p… dele fica duro na hora. A criança não percebe nada, não tem como saber, não entende o que está acontecendo. Ele tentou tocá-la, passar suas mãos nela enquanto

dormia, mas a menina acordou. Não julgo ninguém, nem suas fantasias. Quem sou eu? Mas me dou o direito, sim, de ficar assustada e de ter os meus limites.

Minha vontade de descobrir tudo sobre a vida parecia não ter fim quando fiz 14 anos. Claro, sobravam dúvidas. Uma delas dizia respeito à minha sexualidade. Já havia

dado muito prazer aos garotos que masturbei nas baladas, já havia segurado muitos p… duros, mas não sabia se aquele era o limite do prazer. Tinha curiosidade de

saber como era ter contato com o corpo de outra mulher. E muito medo também. E se fosse lésbica? Naquela fase da vida, só existem duas cores: o preto e o branco.

Se não sou preto, só posso ser branco. Mas procurava não pensar muito nisso.

Um dia, na escola, o garoto que sentava na minha frente levou uma Playboy. Ele começou a olhar a revista no meio da aula, e eu de papagaio de pirata, superantenada

no que via. Nunca tinha visto revistas de mulheres nuas. Essas coisas não entravam na minha casa. Imagine a vergonha de comprar uma na banca. Pedi para ver. Ele me emprestou e eu adorei. Na hora do intervalo, não tive dúvidas:

roubei a Playboy do menino, enfiei na mochila e levei para casa. Eu já tinha me masturbado vendo a O Magazine – tinha comprado montes delas. Mas nunca tinha gozado

vendo aqueles caras de p… duro. Quem sabe se, olhando para as mulheres, eu finalmente gozaria. Bingo! Depois dessa conquista, a do orgasmo vendo fotos de mulheres,

a curiosidade tinha de sair do papel e ir para a

realidade.

Fui a uma festa de debutantes com uma amiga – superamiga – e combinei de dormir na caso dela depois. Bebemos champanhe até não poder mais, ficamos bem alegrinhas.

Em casa, ela resolveu tomar banho.

“Pô, você tá demorando aí dentro. “Não tô te ouvindo.”

Entrei no banheiro para brigar com ela.

“Eu também quero tomar banho.”

“Entra aqui no box, então”, ela respondeu, na boa, sem malícia. Aí eu entrei…

lembro a sensação de prazer e torpor de estar ali, frente a frente com outra menina, nua, tomando banho diante de mim. “O que foi?” “Nada.” O tesão foi tomando conta,

mas não dei o primeiro passo. Apesar daquela confusão toda dentro de mim, do

desejo, da vontade, da disponibilidade, do medo, achei tudo estranho. Eu só olhava. Isso passou, porém, assim que ela tomou a iniciativa. Debaixo do chuveiro quente,

o banheiro esfumaçado, nós duas ali, molhadas, em silêncio, e as mãos dela passeando delicadamente por mim, pelo meu corpo. A cada toque, me deixava levar. Retribuia.

Recebia de volta. Um corpo igual ao meu. Um sexo igual ao meu. Feminino, arredondado, suave. Ficamos naquela noite e foi muito bom.

Nunca mais isso se repetiu com ela. Ambas ficamos envergonhadas. Também nunca falamos a respeito daquela noite. E a amizade esfriou. Como posso contar ou ouvir coisas

de uma amiga com

quem já fui para a cama? Voltamos a nos reencontrar, algum tempo depois; nos reaproximamos, mas a amizade nunca mais foi igual. Acho que não deveríamos ter ficado

naquela noite. Preferia ter minha amiga de volta, por melhor que tenha sido

a experiência.

Um dia, pintaram dois clientes juntos. “Vocês querem ir um de cada vez?” “Queremos ao mesmo tempo.” Uau! Será que eu agüento? Nunca tinha feito dupla penetração

(a tal DP). Dizem que a curiosidade matou o gato. No meu caso, o gato (ou a gata) tem sete vidas e continua vivinho. “Vamos nessa!” No início, nem sabia para quem eu dava mais atenção. Comecei chupando um, quando o outro veio e se ajoelhou ao

lado do amigo e eu passei a fazer rodízio de picolé. Beijava um, depois o outro. Fiquei pensando se ia rolar alguma coisa entre eles, como costuma rolar entre as

mulheres num ménage. Mas saquei que entre eles não haveria contato nenhum. Só as cabeças dos p… encostavam uma na outra, e mesmo assim quando eu juntava e tentava

chupar os dois ao mesmo tempo. Missão difícil.., embora não impossível.

Estar com dois homens à minha disposição me deu uma incrível sensação de poder. Um deles se deitou e eu comecei a chupá-lo de quatro. O outro veio por trás e cravou

na minha boceta Depois de ficarmos um tempão engatados nessa posição, o que me comia por trás resolveu colocar no cu, O que eu chupava escorregou por baixo de mim

e, com muito jeito, penetrou minha boceta. Senti os dois paus brigando dentro de mim. E olha que não eram dos pequenos. “Tá sentindo a luta de espadas dentro de

você?”

“E que luta…” Tudo bem que os movimentos ficam mais contidos. Melhor ainda: dá para fazer tudo num ritmo diferente. E descobri que adoro DP. O que estava no anal

gozou primeiro e saiu do quarto. Rolou um tempão ainda comigo cavalgando o outro, até ele gozar. Só

depois que terminou é que vi que a gozada do primeiro tinha escorrido para o lençol. Ai, que saco…

A rotina das garotas de programa tem um lado bem pouco glamouroso. Eu dividia meu quarto ajeitado, mas simples, com as camas, armário grande, espelhos e uns quadros

impessoais na parede, parecidos com os de hotel, com outras quatro garotas. Nada que lembre o que se vê no cinema, por exemplo, com penteadeira de puta cheia de

badulaques. Como também era lá que trabalhávamos, tínhamos de cuidar da limpeza geral. Nos revezávamos na varrição, na hora de tirar o pó. Nem todas curtiam o trabalho,

mas ficar num lugar sujo não rola… Lavar a roupa de cama e a toalha dos clientes era tarefa da lavanderia. Mas são as garotas que trocam. Senão, dá nojo. Só que

(segredo) não é uma roupa de cama para cada cliente. Tem vezes que é a mesma o dia todo, onde vários homens já se deitaram. Dá uma esticadinha e pronto. Eu vivia

pedindo à gerência para poder trocar. Como não tinham tantos lençóis assim, e não dava para gastar tanto com lavanderia, a gerente ficava brava e dizia não. Às vezes

eu sujava o lençol de propósito com gel só para não ter jeito. Ela brigava comigo, claro. Mas eu não estava nem aí. Nessas ocasiões, precisava mesmo trocar…

A primeira vez que mudei de casa foi sete meses depois de começar a trabalhar, mais ou menos.

Na verdade, a cafetina da Franca me expulsou, junto com mais duas meninas, porque alguém dedurou que fumávamos maconha escondidas. Apesar de ter conhecido meninas bacanas, com histórias bem parecidas, rola muita inveja. Afinal, uma garota é concorrente da outra. Por isso, nunca quis ir trabalhar em casas como o Café Photo ou o Bahamas.

Imagina: se já rola isso entre dez, no privê, o que não deve rolar com cem? Também não curto ter de ficar xavecando cliente para ele fazer programa comigo: ou ele

me quer, vem e transa, ou estou fora. Como nessa profissão o que vale é seu corpo, também tem aquela de a garota ficar botando defeito na outra. E não é fácil fazer

amizade de verdade nesse meio. Nunca trabalhei em empresa, mas acho que deve ser igual… Quando você é escolhida pelo cliente então, tem de sair da sala de costas,

porque, nessa hora, abrem a tampa do serpentário. Numa dessas, uma inimiga oculta resolveu dar com a língua nos dentes com a história do beck só para me foder. Deu

certo.

Acabei indo parar numa casa amarela, na alameda Jurupis, bem perto do shopping Ibirapuera. Tinha de continuar a viver. E a trabalhar. Por ironia do destino, isso

durou poucos meses. A Mari me ligou um dia dizendo que tinha muitos clientes indo embora da Franca sem fazer programa por não me encontrar mais lá. Resultado: a

cafetina, Larissa, teve que

engolir um pouco o orgulho e me chamar de volta. Gostava da casa e voltei, mas só para trabalhar, já que eu tinha alugado um flat para mim, na Miruna, em Moema.

Apesar de ter torrado muita grana com bebida, maconha e cocaína, eu tinha juntado um dinheirinho lá na Franca, antes de me expulsarem. Como não conseguia abrir conta

em banco nenhum (tente fazer isso com 18 anos, sendo garota de programa, sem profissão reconhecida e sem endereço fixo, a não ser o do privê), ficava andando com

o dinheiro dentro de um saquinho, na maior insegurança. Aluguei o flat mais para ter onde esconder as minhas economias – e dormia lá porque “já tava pago mesmo”…

A volta para a Franca não foi o que eu esperava. As meninas que eu conhecia não estavam mais lá e tudo ficou muito estranho. Precisava de ação, de novidade, de um

horizonte. Também estava deprimida, sem rumo e queria muito parar com o pó. Sabia que se não desse uma virada na minha história, ia me perder total, sem objetivo,

só trepando o dia todo para cheirar e fumar tudo depois do expediente. Enfim:

a imagem da puta sem esperança, que vira bagaça e acaba sozinha fazendo ponto numa calçada ou pendurada numa janela de um casarão velho. Pensava só em juntar dinheiro

para poder ser mais dona do meu nariz, sem ficar sustentando cafetão. Então, teria que trabalhar mais. Uma menina, que morava no mesmo flat que eu, me falou do “Vintão”. Ganha um doce quem adivinhar por que esse nome. Fiquei muito curiosa para saber como uma menina podia se vender por 20 reais.

Se o negócio era quantidade e alto giro de capital, lá vamos nós.

Ela me levou até esse lugar, no Campo Belo. Negócio de alta rotatividade, muitos quartinhos individuais, luxo zero – idem de higiene. Bagaceira, pulgueiro, pocilga

mesmo. Imaginem que o quarto é tão pequeno que só cabem uma cadeira fuleira e um colchão de solteiro no chão, com um lençol podre por cima (que só é trocado uma

vez por dia). A trepada é rapidinha, 10 ou 15 minutos: programas expressos, dez reais para a o cafetão, dez reais para a garota.

Queria muito ver a cara dos clientes. Tinha de tudo ali: gari, faxineiro, os caras que ganham salário mínimo. Caras a fim de uma gozada, nada mais. Mas, surpresa:

tinha boyzinho e cara bem de vida, também. Peguei um engenheiro quarentão e que transava forte, me pegava de Jeito. Curiosa, não me contive: Por que você vem aqui

se pode ir a um lugar melhor?”. “Prefiro sair todo dia a fazer um programão num dia só. Por isso venho aqui todos os dias.” Passei a admirar mais as pessoas práticas

depois que ouvi essa resposta. Foram dois dias apenas de “Vintão”. Embora dois dias bem didáticos, confesso.

A grande queimada de filme da minha vida no Bandeirantes aconteceu em outubro de 1 999. Eu tinha 15 anos. Dessa vez, não deu para reverter. Nem tinha como. Eu morria

de tesão por um garoto da minha classe. Bonito, loiro, branquinho, parecia um anjo, de olhos bem azuis. Mas seu jeito, metido e meio cafajeste, estragava tudo. Até

o dia em que ele começou a dar em cima de mim.

Numa aula no laboratório de física, a professora apagou a luz durante uma experiência. Estávamos todos de pé, ao redor do experimento. Ele ficou colado em mim. De

repente, bem de mansinho, pegou minha mão. Com o coração disparado, deixei. Ele foi me guiando. evou minha mão até o seu pênis. Segurei por cima da calça. Ele já

estava duro. Achei que todo mundo estivesse escutando meu coração bater alucinadamente O medo falou mais alto e eu tirei a mão. Ele não desistiu. Veio para trás

de mim e ficou me encoxando ali, no meio de todo mundo. Não resisti: ele estava dando em cima de mim! Da Raquel, a gordinha! Eu estava toda molhada, excitada e assustada.

Não sei quanto tempo ficamos assim, com ele encostando seu pau duro em mim por trás, me provocando, acendendo meu tesão.

Como era a última aula daquela tarde, e já estava ficando escuro, ele se ofereceu para me acompanhar no trajeto para casa. Na verdade, queria me convencer a ir para

algum lugar e fazer o que não tínhamos conseguido terminar durante a aula.

“já está tarde, minha mãe vai me dar bronca.” “Diz que foi estudar anatomia com um colega.” “Vamos deixar para outro dia.” Fiz um pouco de doce. Até que ele me dobrou.

“Pô, você não vai me deixar assim, na mão, vai? Eu sei que você também quer.”

Paramos junto ao muro de uma escola que ficava na rua de trás da minha casa. Na hora, não deixei que ele me beijasse, mas acabei batendo uma para ele ali, no meio

da rua deserta, mesmo sem vontade.

No dia seguinte, na aula, ele continuou insistindo, mandou bilhetinhos e eu não resisti mais. Tinha chegado a minha hora. Depois da aula, uma nova aventura. No caminho,

ele parou para comprar camisinhas. Entrei em pânico, como em tantas outras “quase” vezes em que transei. Não queria que minha primeira vez fosse assim. Nem que ele

percebesse que eu ainda era virgem. Paramos em uma rua sem saída.

“Não vai rolar.” “Qual é?”

“Eu fiquei de sair com minha mãe.”

“Nada disso: a gente chegou até aqui e não vai ficar por isso mesmo.”

Quis novamente ir embora, mas ele não deixou.

“Daqui você não escapa sem ao menos fazer um boquete pra mim.”

Não tinha mais saída. Só sairia de lá se fizesse um oral nele. Também não poderia dizer que não sabia fazer isso. E a vergonha? Nunca tinha colocado um pau na minha

boca, não tinha a menor idéia de como fazer aquilo. Me imaginei chupando um picolé. Eu agachada no chão, ele encostado na parede, com as calças arriadas, agarrando

meus cabelos, sincronizando o vaivém. Não curti essa de ficar empurrando minha cabeça. Eu segurava seu pau pela base, junto do saco. Se deixasse, ele ia enfiar

tudo para dentro. Estava com medo de engasgar, mas muito excitada. Pela situação, pelo gosto do garoto, pelo cheiro dele, pelo ato em si, pelo medo de ser flagrada.

Não demorou muito, ele começou a gemer de verdade, arfando, empurrando seu p… com força entre meus lábios. Então, com um empurrão mais forte, veio aquele gosto

estranho, direto na minha garganta. Ele gozou dentro da minha boca. Só não tive coragem de engolir.

Não sei se é verdade, mas ele me disse que aquela tinha sido a melhor chupada da vida dele. Bem, estreei com elogios da crítica… Só sei que ele realmente gemeu

gostoso. Só me faltou, mais uma vez, coragem para dizer que aquela tinha sido minha primeira vez. Prometemos que aquilo morreria ali, entre nós.

Muito boba, eu mesma quebrei a promessa: contei para uma “amiga”, que idolatrava o cara. Ele, pelo visto, também não manteve a boca fechada. A fofoca correu a série

toda em poucos dias. Ninguém veio me perguntar se era verdade, ouvir o meu lado da história. Só ouvia as risadinhas e sentia os olhares na minha direção. Alguns

de malícia. Outros,

de nojo.

Como num passe de mágica, sumiu todo mundo. Nem as minhas “amigas” ficaram a meu lado. Fiquei absolutamente sozinha. Era a vergonha de serem vistos comigo. Uma menina

veio me perguntar quanto eu cobrava. Disse que nada. Não devia ter feito isso. Me senti injustiçada. Até mesmo aquelas que já não eram mais virgens ajudaram a criar

e espalhar minha fama de puta pelo colégio. Mas segurei minha barra. Ia à escola normalmente e, mesmo sozinha e machucada, derramei poucas lágrimas por causa disso,

apesar de estar sofrendo de verdade com a situação. Eu só tinha 15 anos! Até o dia em que, não agüentando mais hipocrisia,

disse: “Fiz, gostei e faria de novo”. Serviu para calar algumas bocas. Eu sei que não cometi nenhum crime. Então caiu outra ficha: o que o garoto tinha

contado? Homem tem essa mania idiota e infantil de aumentar tudo, de contar vantagem. Nunca soube se isso aconteceu, já que ninguém falava comigo. Nem ele. Mas acho

que ele se vangloriou, sim, de ter “transado” comigo.

A história, claro, foi parar na diretoria. Neguei tudo e negaria até a morte. Nesse dia, desabei. Cheguei em casa chorando e contei tudo para minha mãe. Bem, nem

tudo. Disse que havia saído da escola para beijar um garoto e que ficaram inventando que eu tinha transado com ele, que tinha feito sexo oral nele. Era o fim da

oitava série e minha mãe achou melhor me mudar de colégio. Não sei se ela acreditou em mim. Ou simplesmente fingiu, como eu. O Bandeirantes viraria história. Isso

se um menino de lá não tivesse também mudado para o Maria

Imaculada – e caído na mesma classe que eu. História devidamente espalhada, Raquel mais uma vez marginalizada. Quer saber? Fodam-se!

A experiência do “Vintão” tinha sido muito interessante, de verdade. Embora não fosse para mim. Eu

trabalho com meu corpo e, claro, fico cansada.

Sem querer brincar com trocadilhos, essa “vida fácil” não é mole, não. Fazer dez programas por dia beira a insanidade. Fica tudo dolorido. O negócio era experimentar

outro privê, tomar fôlego e começar novamente. Mas com outra cabeça. Fui parar numa casa da rua Michigan, no Brooklin. Hoje sei por que tinha de passar por lá: foi

onde ganhei o meu “sobrenome”. Sempre gostei muito de mar. Uma de minhas duas irmãs tinha uma casa no Guarujá e eu sempre descia. Saudades… No mar, tive meus únicos

momentos sozinha, sem ninguém por perto. Cheguei a surfar de morey e até de prancha nos points de lá. Mas ninguém sabia disso.

Havia duas “Brunas” trabalhando na casa. Um cliente escolheu a Bruna e a gerente levou a outra para ele:

Não é essa, quero a surfistinha. Gostei do cara. Foi um programa em que rolou química e afinidade. “Por que você me chamou de surfistinha? Você tem

estilo. Taí: gostei! Quando saí dessa casa e comecei a trabalhar emflat, tinha de arrumar um sobrenome que combinasse comigo. Lembrei da história e não tive dúvidas:

eu seria a Bruna Surfistinha.

Já falei que uma das coisas que mais me irritavam nos privês era a história das roupas. Bem, lá vai mais uma história de bastidores. Na Michigan, era o pessoal

da própria casa que lavava as roupas de banho

(as de cama iam para a lavanderia). Tinham umas quatro máquinas de lavar e um monte de varal para secar. Só que, na chegada do inverno, quando surgem mais clientes,

não fazia sol e as benditas não secavam de jeito nenhum. Na sala onde as garotas ficavam aguardando tinha um aquecedor. A gente descia do programa com a toalha,

a gerente colocava na frente do aquecedor, deixava secar um pouquinho, dava uma olhada para ver se não tinha nenhuma manchinha e embrulhava de novo. Lavou, tá novo,

não? E vários homens se enxugavam com a mesma toalha. Coisa feia…

Toda essa confusão, a descoberta do desejo, as fofocas, a perda dos amigos, o fato de eu ter sido sempre gordinha, tudo me levou a um lance doloroso. Eu fiquei com

depressão, tomava Prozac e tudo. Uma neura de engordar de novo, no meio disso tudo, me levou à bulimia. Enchia a cara com doces e depois, na maior, enfiava os dedos

na garganta e… virou uma compulsão. Eu tinha fome, comia muito, acho que devido ao remédio e à ansiedade, para em seguida sair correndo da mesa e colocar tudo

para fora. Quando voltava da escola, passava por uma loja e comprava, todo santo dia, vinte reais em doces e chocolates.

Praticamente engolia tudo de uma vez, só para sentir o gosto, e, dois minutos depois, dava um jeito de tirar aquilo de mim. Minha mãe sacou, até pelo barulho da

descarga depois

de cada refeição e de cada escapada. Para disfarçar, comecei a vomitar em um jornal, só para não precisar dar a descarga.

Sei lá por que veio essa maldita depressão. Quer dizer, até sei: me achava gorda, feia, era adotada, tinha um monte de problemas com meu pai… Quando cheguei aos

16 anos, depois da cagada no Bandeirantes e de a história ter me perseguido também no Imaculada, me vi, não bastasse tudo isso, sem amigos. A situação chegou em

um ponto do qual não via saída. Planejei me matar. Tinha de ser algo rápido, que não me fizesse sentir dor ou correr o risco de continuar viva, mas tetraplégica,

por exemplo. Um revólver seria o ideal. Meu pai tinha um em casa. Legalizado, claro. Não que ele alguma vez tivesse usado; isso veio do tempo em que morávamos na

chácara. Eu sabia onde ele guardava a arma.

Um dia, sozinha em casa, estava mesmo no fundo do poço. Peguei a arma onde meu pai a escondia e, mesmo trêmula, levei o cano à boca. Estranho segurar uma arma. Ela

é fria, seu peso não combina com seu tamanho. Parecia que eu tinha nas mãos algo de outro planeta, local que bem poderia ser meu destino final após experimentar

o primeiro e último tiro que daria na vida. Fechei os

olhos e, com o dedão, me preparei para pressionar o gatilho. Tinha uma pressão absurda dentro de mim,

da minha cabeça, dentro do meu peito. Contei até três e…

Aquela merda estava sem balas. Mesmo assim, recobrei a vontade de ir até o final. Revirei tudo e achei um saquinho onde meu pai guardava as balas. Não sei

o que deu em mim, mas não consegui colocar nenhuma bala no revólver. Achei melhor desistir. Por enquanto.

Passou uma semana e eu continuava péssima. Tomava Prozac para ficar acordada e outra droga para dormir. Acho que nenhuma teve o efeito esperado, pois passei cada

noite desses sete dias repassando minha vida a limpo, vendo quanta coisa

eu tinha que resolver. E resolvi tentar de novo. Esperei todos irem dormir, coloquei uma cadeira junto à janela da sala, que era a única que não tinha tela, e concluí

que cair do nono andar seria fatal, como eu pretendia. Subi, coloquei uma

perna

para fora da janela e, com metade do corpo para dentro e outra para o nada, fiquei pensando nas coisas ruins da minha existência. Isso me daria a força necessária

para dar o salto. Não consegui pensar em nada que fosse tão ruim assim a ponto de me fazer tomar impulso. Só vieram coisas boas a minha mente: meus sonhos, a vontade

de fazer

as pazes com meus pais. A coragem, que já não era muita, se mandou pela janela antes de mim.

Nunca mais tentei. Queria viver. Então, tinha de fazer algo por mim.

Eu já tinha namorado dois garotos, um do Bandeirantes e outro do colégio Maria Imaculada, sem nunca ter passado com eles o limite de uns bons amassos, pegação e

um

ou outro oral. Vão achar

que estou mentindo, mas eu ainda era tecnicamente virgem aos 17 anos! Ou seja: nenhum menino havia enfiado seu

pau em mim. O que, também tecnicamente, qualifica

uma garota a ser ou não virgem. Sinceramente, não teria motivo nenhum para mentir sobre isso agora.

Como minha mãe fazia marcação cerrada, e eu não queria que minha primeira vez fosse encostada no muro de uma rua escura, ou numa pista de dança, ficava difícil atender

a todos os requisitos. Claro, eu também tinha de estar realmente apaixonada. Sonhava em arrumar um namorado para ir morar com ele, não importava a idade que eu tivesse.

O terceiro namorado da minha vida eu arrumei pela internet. Lá em casa, meu pai e eu tínhamos, cada um, o seu próprio computador, o que garantia certa privacidade,

mesmo que no mundo virtual. Sempre fui maluca pela internet e passava horas navegando, escrevendo coisas e, claro, paquerando no virtual. Até que me apaixonei por

um garoto

pela tela do computador. Sério. Marcamos encontro e tudo. No cara a cara, achei ele horrível. Se não fosse a paixão… Começamos a namorar de verdade.

Em casa, sofremos muito preconceito, pois ele era motoboy. A fílhinha de papai, classe média, namorando um cara assim Meu pai não aceitou, de

jeito nenhum. “Não

quero você namorando um pobre, um motoboy. Imagina você casando com um tipo assim, que não vai poder te sustentar; você vai ter que trabalhar.” Para ele, família

era como a dele:

minha mãe nunca trabalhou, apesar de ser formada em Letras e ter sido professora, por algum tempo, em Sorocaba, antes de se casar com meu pai. Coitada, que tédio:

ver tv o dia todo, cuidar da casa, das filhas, falar bobagens ao telefone.

A paixão é cega, surda e descerebrada. Muda, nunca. Brigava com meus pais todos os dias. Acho que foi por causa disso que armei até não poder mais para acabar de

vez com minha virgindade. Imagina o malabarismo. Meus pais tinham ido viajar e minhas irmãs não moravam mais conosco. Minha mãe, quando estava fora, sempre pedia

para a empregada dormir lá em casa – na sala, para ser mais específica… Ela sempre dormia cedo, o que era um facilitador. Planejei tudo. Meu namorado chegou no

prédio e me ligou pelo celular. Sem levantar suspeitas, disse que ia no apartamento de uma amiga. Desci, encontrei com ele e subimos juntos pelo elevador de serviço, para evitar ter de interfonar. No meu andar, ele ficou escondido na

escada.

Muito excitante, mesmo. Parecia coisa de filme.

Meu coração disparava sem motivo nenhum; morria de medo de alguma coisa não dar certo. Pedi um delivery de jantar. Assim que a comida chegou, pedi para a empregada

descer para pegar. Era o tempo de ele entrar furtivamente em casa pela porta da cozinha e ir se esconder no armário embutido do meu quarto, enquanto eu disfarçava

um pouco na sala. Peguei a comida, deixei a parte da empregada para ela comer sozinha e fui me trancar no quarto. Ele saiu do armário (no bom sentido), jantou comigo

e esperamos até ouvir o ronco da empregada. De barriga cheia, ela logo dormia. Saímos do meu quarto, com todo cuidado para não acordá-la, e fomos para o quarto dos

meus pais. Claro: tinha de ser em cama de casal… A transa não deu muito certo nas primeiras duas noites (das cinco) em que repetimos esse esquema. Só na terceira

é que tive coragem de transar. Foi uma loucura, muito ruim, pois foi planejado. Foi algo bem mecânico. Eu senti o hímen se romper e ficou por isso mesmo. No fim

das contas, só perdi a virgindade. Não, aquilo não foi sexo. Doeu muito, eu nem podia gritar ou fazer barulho.

Levou um tempo até eu fransar de verdade.

Valeu a pena? Sim. Eu imaginava que virar a “mulher” de alguém, por inteiro, seria mais uma razão

para eu decidir, finalmente, sair de casa para morar com ele. Mas percebi que não precisava casar com ninguém para fazer isso. E tinha de ser rápido.

Meus seios eram pequenos, proporcionais ao meu corpo. Eu estava contente com eles, mas não era hora

de pensar em mim. Lá fui eu, com minhas economias, turbinar os peitinhos. E não foram só os seios que aumentaram: entrou outro “prato” no cardápio da Bruna Surfistinha:

oral, vaginal, anal e… espanhola! Se ainda não adivinhou o que é, eu conto. Eu aperto os dois seios e, naquele apertadinho macio, faço um “genérico” de

boceta Para

mim, no começo

era engraçado, pois parecia que eu estava vendo a

transa como se estivesse dentro da vagina, com a cabeça do pau aparecendo e desaparecendo, bem perto da minha boca. Com os mais bem-dotados, dá até

para emendar um “dois em um”, com umas lambidas

na cabecinha quando ela chega perto. Já tive clientes que só conseguiam gozar assim.

Estava trabalhando como garota de programa há quase um ano quando pintou meu primeiro casal (de uma longa série) lá na Michigan. Quer dizer, a primeira dupla. Ambos eram casados, sim – mas não um com o outro. Eles chegaram e eu, curiosa, fui medindo a mulher. Confesso que fiquei muito excitada. Chupar outra garota enquanto o cara chupa você é uma sensação indescritível. Nem preciso fazer força para gozar de verdade. Ela retribuiu a gentileza e me chupou com gosto.

Enquanto ela ficava com a língua na minha boceta, eu engolia o pau dele. Adorei ser o centro das atenções deles. Enquanto ele me comia, deitado, ela se oferecia

toda pra mim, lambia meus seios, me dava um banho de língua com ele engatado em mim. Nos beijamos, nos esfregamos nos chupamos. Se não fosse por mim, o coitado teria

de ficar batendo punheta. Gozei umas duas vezes.

Essa foi a primeira vez que transamos, e estranhei ela ter ficado muito mais interessada em mim do que nele. Nada contra, mas não me pareceu natural. Se eu não desse

um pouco de atenção ao rapaz, seria como se ele não estivesse lá. Saquei que ela tinha nojo dele, escapando a cada investida, a cada toque, a cada tentativa de beijar,

chupar. Enquanto ele tomava banho, nós duas começamos a conversar. Eles eram amantes há algum tempo, mas o interesse dela era pelo dinheiro dele, e não pelo prazer

que o fato de serem amantes poderia proporcionar. O marido dela não tinha condições de dar nem metade do que

o amante dava para ela. Carro do ano, jóias, enfim, presentes de amante mesmo.

Eles só podiam se encontrar uma vez por semana, durante duas horas. Para se livrar do fardo de fazer sexo com ele, ela passou a exigir outra mulher na cama com eles.

Inventou que gostava (mas parecia gostar, mesmo), só para fazer o tempo correr mais rápido quando houvesse esses tais encontros. Não sei se ela inventou isso para

dar uma desculpa, embora fizesse sentido, pelo que vi.

Essa mulher era uma exceção, com certeza. Depois que sair com casais virou rotina, e me iniciou no interessante mundo dos clubes de swing, consegui chegar a uma

conclusão sobre a alma feminina: elas gostam de estar com outra mulher. Esse papo de “realizar a fantasia do marido” é para a minoria. É a desculpa útil. Mulher

é mais tímida, reservada, tem medo dos tabus. É claro que há casais em que se torna evidente o marido ter forçado a barra, obrigado a mulher a sair com outra. Estas

chegam com medo, travadas, não sabem o que fazer.

Foi meio constrangedora uma ocasião em que a mulher chegou a chorar na minha frente pelo ciúmes de ver o marido comigo. Mas tem as outras, que até incentivam. Essas juram que, se fizerem isso, os maridos não terão necessidade de traí-las, pois estarão sempre juntos nas aventuras sexuais. Se elas soubessem quantos deles voltaram sozinhos depois… Sem falar nos que tinham

vindo antes. Já ouvi muito “quando ela vier aqui, você finge que nunca me viu na vida, hein?”. Sinto pena delas. Estão sendo enganadas e não sabem. Ou fingem não

saber, não perceber, sei lá. Nunca vou ter essa ilusão de ser liberal para evitar a traição. Não existe essa de satisfação total nem garantia de nada.

Engraçado, são tantas as razões de cada uma dessas mulheres para chegar a dividir sua cama e seu marido com mais alguém: medo, prazer, ciúmes, curiosidade, insegurança,

fantasia. Mas, no fundo, acredito que toda mulher goste mesmo de mulher. Se homem gosta de homem eu já não sei, pois quando rola de estar com dois ao mesmo tempo,

mesmo nas “festinhas” com direito a DP e tudo, nunca vi nada entre eles (o que é uma pena). Se fazem quando estão sozinhos, já é outro departamento… Já vivi a

intimidade do sexo com muita gente, homens e mulheres, e sei do que estou falando. Vou dar uma excelente psicóloga, pode escrever.

A história do namorado motoboy, as mentiras que eu contava só para conseguir o que eu queria, as

aprontadas e minhas notas no colégio, tudo isso só ajudou a azedar minha relação com meu pai. Ele ainda tentou dar um

jeito: levei bomba no primeiro colegial e,

quando passei para o segundo, me mandou para o São Luís para ver se um novo ambiente

ajudaria. Não adiantou nada: eu continuava sem o menor saco para estudar.

Eu e meu pai tínhamos brigas terríveis, mas ele nunca havia me batido, por mais que eu temesse o contrário No fundo, sempre achei que merecia. Por isso, vou revelar

a verdadeira história de por que eu apanhei do meu pai pela primeira vez. Nunca contei isso a ninguém por absoluta vergonha mesmo. Eu roubava. Não, não sou ladra

profissional. Começou quando eu tinha uns oito anos e a gente morava em

Araçoiaba. Lá, tinha uma quitanda com um baleiro sobre o balcão. Como tinha só uma atendente,

que estava ocupada com minha mãe, era muito fácil pegar as balas escondido – e igualmente escondida eu as

saboreava. Sabia que bastava pedir que minha mãe compraria

quantas eu quisesse. Mas o barato era a adrenalina, o medo do proibido e o risco de ser apanhada. Só uma vez eu me descuidei e minha mãe perguntou de onde vinham

aquelas balas. Menti: “Ganhei na escola”. Passou pouco tempo até eu descobrir outras facetas dessa vontade incontrolável: os doces não eram suficientes e eu me descobri

compulsiva por dinheiro. É isso mesmo: o dinheiro sempre me dominou.

Imagine: eu, com oito anos, pegando dinheiro dos meus pais! Como meu pai quase não podia sair, por causa da doença, sempre havia dinheiro na casa. Naquela época,

nem era real ainda. Não tinha a menor idéia do valor do dinheiro, mas já sabia que pedir (no que certamente seria atendida) era menos excitante do que pegar. Comecei

pegando algumas notas, de vez em quando, daquele bolinho que ele sempre guardava. Então, ia até uma loja e perguntava à vendedora o que dava para comprar. Mesmo

assim, continuei pegando coisas em outros lugares. Principalmente doces.

Tínhamos um motorista só para me levar e buscar na escola, que era em Sorocaba, já que meu pai não podia me levar e minha mãe não gostava de dirigir até lá. No caminho,

sempre pedia para ele parar na Real, uma padaria maravilhosa da cidade, inventando que minha mãe havia pedido para eu comprar alguma coisa. Eu tinha o dinheiro na

minha bolsinha e nem estava tanto assim com vontade de comer doces ou chocolate. Fiz isso durante muito tempo, até que um dia…

Não sei por que, minha mãe resolveu me levar à escola naquele dia. Ela parou na tal padaria e me pediu para ir até lá comprar alguma coisa. Na volta, veio com um

papo muito estranho: tinha visto uma menina sendo levada aos safanões pelo segurança

da loja até o escritório. E ficou dizendo que a garota havia sido apanhada pelas câmeras de segurança furtando coisas da padaria. Eu nem sonhava que existisse isso

nas lojas. Até hoje não sei se ela sabia de alguma coisa (era bem provável, já que todo mundo ali conhecia minha mãe e devem ter dado um toque) e escolheu esse caminho

para me dar um susto, ou se a história era mesmo verdadeira. Só sei que parei de pegar fora de casa. Só fora de casa. Lá dentro, era sempre em cash.

Todos os dias, quando a gente já havia voltado para São Paulo, eu pegava ao menos cinqüenta reais. O que valia era a sensação do proibido, até porque eu ganhava

mesada deles e, se precisasse de mais, bastava pedir. Eu fiquei tão fissurada nesse negócio que não deixava passar um dia sequer sem pegar dinheiro. Minha mãe me

flagrou duas vezes, e o seu perdão (pedido aos prantos, com lágrimas e vergonha verdadeiras) parecia um green card para eu continuar fazendo. Ela até chegava a comentar

com meu pai, na minha frente, que estava sumindo dinheiro da carteira dela – acho que na esperança de que eu me tocasse e parasse com aquilo. Doce ilusão…

Comecei a pegar no colégio, também. Eram só dez reais aqui e acolá, nada grandioso. Ninguém levava mais do que isso para a aula. Eu esperava o pessoal sair para

o recreio, voltava para a sala e vasculhava as bolsas. Até o dia em que uma menina da classe deixou trinta reais em cima da carteira e eu nem pisquei: fui lá e peguei na caradura. Deu diretoria… Alguém me viu voltando para a sala no intervalo e dedurou.

Quando a diretora perguntou, não procurei mentir e assumi: “Fui eu mesma”. Ela me perguntou se eu estava usando drogas. Seria bobagem admitir isso, já que eu não

gastava tudo o que pegava com erva. Resolvi mentir. O castigo seria devolver o dinheiro. Adivinha o que eu fiz? Peguei em casa. Caso encerrado, pero no mucho. Imagina

se não continuou sumindo dinheiro no colégio… Mas, das outras vezes, só paguei a fama sem deitar na cama.

Eu realmente achei que, devolvendo a grana, ficaria tudo bem. No entanto a diretora resolveu chamar minha mãe e contar tudo. Ela ficou arrasada, muito brava comigo,

brigamos e tudo. Mas, àquela altura do campeonato, por mais que eu quisesse parar (e eu queria), não conseguia.

Tinha de pegar cada vez mais. Tudo para alimentar

outro vício: a compulsão por compras. Eu só comprava futilidades, mas tinha uma necessidade maluca de comprar. E isso demandava cada vez mais dinheiro.

A coisa estava tão fora de controle que até os dólares que minha irmã guardou (sobras da viagem aos Estados Unidos para conhecer meu cunhado) entraram na dança.

Antes de voltar para o exterior para casar, ela resolveu fazer uma obra no apartamento dela e, com medo dos pedreiros, levou o dinheiro lá para

casa. Eu pegava uma ou outra nota de dólar e, quando vi, tinha roubado todas. E a coisa não parava. Comecei a vender meus livros em sebos, até acabar com todos.

Comecei a levar outros de casa. Chega! Prometi a mim mesma que não faria mais isso. Quando prometo algo, eu cumpro. Dessa vez, não deu.

Um dia, quando ninguém estava em casa, comecei a xeretar as gavetas atrás de algum dinheiro. Encontrei um gravador e um monte daquelas fitínhas cassetes. Comecei

a ouvir e descobri que minhas conversas ao telefone haviam sido todas gravadas. Tudo bem que eu havia feito um monte de cagadas, mas aquilo era invasão demais.

No começo de 2002, pensei: “Se eu pegar bastante dinheiro e comprar tudo o que quiser, depois eu paro”. Me lembrei de um conjunto de jóias da Vívara que meu pai

havia dado a minha mãe como presente de aniversário de casamento no ano anterior e que ela nunca havia usado. Tentei vender só o anel, mas ninguém me dava mais do

que cinqüenta reais por ele, por mais que sua pedra fosse rara. Desisti temporariamente da idéia, até que, num rompante, resolvi pegar o estojo com todo o conjunto.

Soube de um lugar na Oscar Freire que comprava jóias e pagava bem. Então, levei tudo na mochila para o colégio. Eu havia até me esquecido de que estava lá quando

uma amiga me pediu alguma coisa e eu falei que ela podia

pegar na bolsa. Foi um auê: parou a aula e até a professora veio ver o que estava acontecendo, tamanho o escândalo que a menina fez. A professora perguntou por que

eu estava carregando aquilo, e eu, mais uma vez, menti: era um presente do namorado que eu ia emprestar a uma amiga para ir a uma festa.

No fim da aula, lá fui eu à tal loja da Oscar Freire. O cara reconheceu o valor das jóias, mas disse que só podia pagar quinhentos reais. Disse não, é lógico. Voltei

para casa com o estojo, guardei novamente no armário, embora a perspectiva de ter quinhentos reais fosse muito tentadora. Era muito dinheiro para uma garota de 17

anos. Pensava nas coisas que poderia comprar com essa grana e não resisti. Minha mãe, que nunca havia usado aquelas jóias, nem ia dar pela falta delas. No dia seguinte,

fechei o negócio. Tomei um táxi e, na mesma hora, me arrependi. Pedi ao motorista que desse a volta no quarteirão e voltei à loja. Adivinha quanto ele queria para

eu comprar tudo de volta? Dois mil e quinhentos reais!!! De onde eu tiraria essa grana toda? Deixei para lá. O que estava feito, estava feito.

Em maio, minha mãe resolveu colocar as tais jóias para irmos a um casamento. Evidente: ela não as achou. Chegou a perguntar para mim se eu havia visto – e eu menti,

claro. Ela revirou a casa inteira atrás das benditas jóias e acabou colocando outras.

Foi um alívio – mesmo que temporário. No dia seguinte, um sábado, ela colocou a casa de pernas para o ar. Juro que tive vontade de chegar nela e contar tudo, mas

não soube como. “Foi a empregada!”, concluiu minha mãe. Eu fiquei morrendo de culpa, pois a empregada trabalhava com a família há quase vinte anos e não achei justo

que ela levasse a culpa. Mas continuei no silêncio.

Na semana seguinte, minha mãe chegou em casa dizendo que viera do colégio e que a diretora contara a ela que eu andava com atitudes estranhas;

dando presentes a minhas amigas (estava me desfazendo das minhas coleções de adesivos e papéis de cartas, só isso). Como prato principal, a revelação:

a história da jóia vista na sala de aula chegou aos seus ouvidos. “Se foi você, quero as jóias de volta”, disse ela, imaginando que ainda estivessem comigo. Não

teve jeito e eu confessei tudo, inclusive a venda. Ela quis saber por quanto eu havia vendido, porém isso não revelei. Cena de horror, embora minha mãe garantisse

que não contaria nada ao meu pai, com medo da reação dele, de ele ter algum troço, já que ainda deveria estar pagando as prestações do presente, ou até mesmo de

ele me bater.

Passou pouco tempo até que cheguei em casa e vi minha mãe com aquela expressão terrível que só ela sabe fazer quando está brava. Ela disse apenas:

“Não agüentei e contei tudo para o seu pai”.

Nisso, eu o vi vindo da sala na minha direção. Sem dizer nada, começou a me bater, bater, bater. De mão fechada, aberta, de tudo quanto é jeito. Não sei como, começaram

a chegar pessoas lá em casa:

minhas irmãs, os amigos delas, meu cunhado. Virou platéia. Meu pai me arrastou até o sofá e continuou batendo. Quando ele cansava, eu pedia para ele bater mais.

Já que não tinha conseguido me matar, aquela era a chance: “Me mata de uma vez. Eu deixo você me matar”; ele dizia: “Eu vou te matar, mesmo, de pancada”.

Resolvi enfrentar. Não derramei uma lágrima sequer. Queria me mostrar forte, por mais machucada que tivesse. Meu pai falou que já havia falado com alguns juízes

amigos dele e que eu ia direto para a Febem. Apanhei até a hora que meus pais saíram para dar queixa de mim. Fiquei sendo vigiada pelas minhas irmãs, que, claro,

me censuraram. Me “lembraram” de que eu havia sido adotada por amor,

que eu tinha tudo o que elas nunca tiveram, pois nem sempre meus pais tiveram grana. Mas eu enfrentava todo mundo, nem sei por quê. Na volta, meu pai continuou a

me bater, até cansar. Fui para o meu quarto e deitei com a roupa que estava, sem nem tomar banho. Ele entrou no quarto, me deu um tapa no rosto e disse: “Toma mais

um”. Foram três dias assim, até que ele parou de me bater. Nunca mais fiquei sozinha. Sempre tinha alguém me vigiando, em casa, na rua, no caminho para

a escola.

À noite, eles trancavam as duas saídas do apartamento e iam dormir. Durante o dia, trancavam as portas do escritório e do quarto deles, com medo que eu roubasse mais alguma coisa.

Uma semana depois, meu pai chegou para mim e disse: “Hoje é sua audiência”. Bem, se ele não me matou, melhor mesmo seria ir para a Febem. Ele e minha mãe foram de

táxi. Eu ganhei um bilhete de metrô e algumas orientações de como chegar até lá. No meio do caminho, pensei em fugir, mas tive medo e resolvi enfrentar o juiz. Quando

cheguei lá, ficamos em uma sala onde estavam muitas mães de garotos presos, pois era dia de audiência para ver quem seria solto. Na hora que entrou aquela fila de

meninos de mãos dadas, obrigados a olhar para o chão sem virar o rosto, muitas delas começaram a

chorar vendo os filhos. “Vai escolhendo aí quem vai ser seu namorado

na Febem”, disse meu pai. Nem sei, mas acho que meninos e meninas ficam separados

lá dentro. Ele disse isso mais para me machucar. Ainda mais. Minha mãe só chorava;

não dizia nada.

Fomos chamados para a sala da juíza (ainda bem que era mulher). Eu estava com o coração na mão. Primeiro falou meu pai. Depois, minha mãe, que confirmou minha rebeldia

e os problemas que eu estava causando, que eles não sabiam mais o que fazer comigo e que estavam decepcionados. Na minha vez, menti dizendo que tudo isso era por causa da maconha. Alguma coisa até era, porém não tudo. Disse que estava arrependida, embora para mim fosse indiferente ir para a Febem ou voltar para casa.

Na vez da juíza, ouvi o sermão. “Eu conheço sua família, trabalhei com sua irmã, sei como são boas pessoas. No seu lugar, eu valorizaria tudo isso. Você estudou

em bons colégios, não tinha razão para fazer o que fez. Já que você diz que o problema é a maconha, não vou fazer nada com você. Vou passar uma lista de clínicas

de desintoxicação para você parar com a droga. O processo que seu pai abriu vai ficar aqui comigo, arquivado, pois tenho certeza de que isso é uma coisa de adolescente,

que pode e vai mudar. Não vou colocar você, que

é estudada, no meio dos outros que nunca tiveram,

e dificilmente terão, as oportunidades que teve na

vida e a chance de mudar o que foi feito. Se teus

pais não te deram uma chance, eu vou dar, para

você provar que mudou.” Ficou por isso mesmo…

Acabei não indo para clínica nenhuma, pois meu

pai jurou que nunca mais gastaria um tostão comigo

– e as clínicas eram todas pagas e caras. Eu até o vi dando uma olhada no papel algumas vezes, no entanto nunca se tocou no assunto. A promessa de secar a fonte

financeira foi cumprida à risca. Eu fui transferida do São Luís para o Brasílio Machado, um colégio estadual. Cortaram minha mesada, me tiraram da academia. Só recebia

os passes para ir

à escola. Eu ia a pé do Paraíso à Vila Mariana e vendia os passes em troca de dez reais por semana. Quase nada, mas dava-se um jeito: conseguia comprar cigarros,

ao menos. Baladas? Nem pensar… Nessa escola, conheci muita gente boa, mas muita gente do mal, que roubava para ter dinheiro, mesmo que não fossem, vamos dizer

assim, carentes… Quase entrei no meio deles, mas escapei.

Havia um japinha que vivia correndo atrás de uma garota lá da Michigan. Mas que acabou ficando comigo mesmo, já que levou uma esnobada.

“Eu tenho uma fantasia.”

“Qual?”

“Eu adoro depilar as putinhas.”

eu já tenho bem pouquinho. . .”

Não faz mal: eu quero raspar tudo e deixar sua boceta peladinha.”

Sacando um aparelho e o creme de barbear de sua pasta, meu “barbeiro japa” foi tirando os poucos pêlos que eu tinha. Fiquei carequinha. Sensação nova e excitante.

Tentei continuar a transa, mas a sessão de fantasias ainda não havia terminado: ele queria fotografar. Deixei. Só quando ele já havia tirado um monte de fotos foi que caiu de boca. Lei da selva: matou, tem de comer. No meu caso, descascou, tem de chupar. Só depois desse ritual foi que transamos sossegados. Apesar

da tara, ficamos no bom e velho papis e mamis.

Na putaria, a gente entra em contato com um lado mais verdadeiro e menos hipócrita das pessoas. Elas não escondem seus desejos mais secretos, liberam fetiches que

não confessariam a ninguém, nem sob tortura. Com uma garota de programa, ninguém precisa fazer jogo de cena. Eles vêm até mim para realizar suas fantasias. Funcionamos

como terapeutas, às vezes. Meu critério de normalidade mudou muito desde que passei a viver do sexo. Mesmo assim, em algumas ocasiões há situações difíceis de esquecer.

Trabalhando nos privês, descobri que tem muitos homens casados, muitos mesmo, geralmente entre 35 e 45 anos, que querem é que você seja “ativa” para eles.

“Você tem brinquedinhos?”, eles perguntam ao telefone.

“Sim, muitos.”

“E quais são?”

“Tem de tudo. Basta me dizer com o que você gosta de brincar.”

“Tem vibrador?”

Essa é uma abordagem muito comum, acredite. O que me fez virar cliente assídua de sex shop. É um mundo bem divertido, além de pervertido. Há vários “brinquedinhos”,

pomadas, cremes, roupas, fantasias, perfumes, lingeries. E camisinhas (que eu compro para dar aos meus clientes), além de um monte de gente que passa por cima da

vergonha e carrega sua figura insuspeita para dentro das lojas em busca de excitação. Ficam expostos uns consolos enormes,

boceta de borracha, bonecas infláveis.

Foi num desses sex shop que eu vi um cara comprando uma boneca e logo pensei: se algum dia um namorado ou meu marido disserem que já transou com uma coisa dessas,

é fim de caso.

Hoje freqüento um sex shop aqui mesmo em Moema que é um barato: só entram mulheres. A gente fica mais à vontade, sem aqueles homens olhando, curiosos, apenas para

ver o que a mulherada compra. E tem umas coisas engraçadinhas: um canudinho e um jogo de talheres em formato de

pau, que eu comprei para a minha casa. Às vezes,

vou só para ver as novidades. Putz, quase mudei de assunto.

Voltando: bem, o que esses homens querem é que eu vire o “bruninho”, que enfie um vibrador bem grande neles, que coma mesmo. Faço muitos programas em que o trabalho

é vestir a calcinha com o consolo preso e mandar ver, sem dó. Modéstia à parte, acho que como muito bem. São caras que você olha na rua e vê que são pais de família, uns caras bem comuns.

Não comi só esses que fazem o tipo “paizão”, não. Já enrabei também muito cara bombado de academia, que posa de macho, tem preconceito contra homossexuais, mas que,

no fundo, no “vamos ver”, tem tara por ficar de quatro, ser dominado. Acho que eles não têm coragem de procurar um homem e se sentem menos bichas se forem comidos

por uma mulher. No fim das contas, tudo isso vira coisa normal

Assim como é normal brochar. Só os homens não sabem disso… Um dia, chegou um moleque novinho, bem alto. Estava pra lá de tímido. Fui abraçá-lo. Com a minha altura,

fiquei com o ouvido colado no coração dele. Batia bem acelerado. Além de tímido, estava ansioso. Não conversamos muito, mas posso dizer que foi um programa “exótico”.

Ele começou a chupar meus peitos e percebi algo diferente. Ele não estava chupando: estava mamando em mim! E ficou assim por um bom tempo. Quando ele soltou, disfarçadamente

dei uma apertada nos bicos, para ver se não estava saindo leite. Brincadeira…

Depois da mamação, foi a minha vez de cair de boca. Acho que fazia um tempão que ele não batia umazi nha

pois seu gozo foi muito intenso e farto. O pau dele ficou latejando um tempão na minha boca. Fui ao banheiro para me limpar e, assim que voltei, ele já pegou minha

mão e levou ao seu pau mole. Uau! Ele não quer dar nem o respiro regulamentar! Voltei a chupar seu

pau mole. Bem, fiquei nessa durante meia hora. Não tem coisa

pior do que ficar chupando pau mole. E nada de o “menino” ressuscitar. Sorte dele que não cobrei pelos mililitros de saliva que gastei naquele dia. E ele foi ficando

puto, xingava o pau,

reclamava como se conversasse com “ele”. Ficou sem graça comigo por ter “brochado” no segundo tempo. Pudera: eu nunca vi essa coisa de dar “duas sem sacar da moringa”.

Ele acabou indo para o banheiro para bater umazinha por conta e ver se o negócio subia. Como eu sei? Na porta do quarto fazia a sombra dele balançando. Eis um caso

típico de problema na cabeça de cima.

Um ponto final com duas sentenças diferentes. Esse foi o saldo da briga com meu pai. Precisava fugir dali, ir viver minha vida, antes que ele decidisse se e como

eu deveria vivê-la. Naquela casa de portas trancadas, eu era uma espécie de cobaia humana. Primeiro as portas trancadas, depois as gravações e, agora, o silêncio

total: ninguém mais falava comigo ali.

Só tinha mesmo minha gatinha para me fazer um pouco de companhia. justo eu, que tenho horror de ficar sozinha.

Sem querer, uma noite ouvi meus pais conversando sobre me mandar para um lugar, sem dizer que lugar era esse. Nem sabia o que pensar. Me senti uma menininha novamente,

sozinha, imóvel e assustada em seu quarto escuro, medrosa como sempre fui (e ainda sou), imaginando um monstro debaixo da cama. No meu caso, ele dormia no quarto

ao lado – e sua maldade parecia um segredo inconfessável. Se eu escapei de ir para a Febem, o que será que ele tinha em mente? Essa foi a mais tenebrosa e a mais

longa jornada noite adentro da minha vida.

Certo dia em julho, do nada, minha mãe me avisou que eu iria para o Guarujá no dia seguinte. Quem é que, depois de uma história maluca como essa, manda a filha se

divertir na praia? Percebi, até pelo silêncio da minha mãe, que não se tratava de um si

nal de arrependimento: eles realmente estavam planejando algo para mim e me queriam longe dali.

Você acredita que meu pai só me deu 50 reais para eu passar duas semanas? Tudo bem que eu ia ficar

na casa de uma amiga, mas aquilo, claro, não duraria nem um dia. Como não durou. Embora não quisesse pegar mais dinheiro de ninguém, nem que fosse emprestado pela

pessoa, me passou uma idéia pela

cabeça: fazer sexo por dinheiro. Nem sei de onde tirei essa idéia, mas

lá fui eu. Saí uma noite sozinha para passear no calçadão paquerando os homens sozinhos. Se

algum chegasse junto, eu ia dizer que era garota de programa e que, para fazer sexo comigo, ia ter de pagar. Vários homens pararam e alguns até se aproximaram. Eu

é que não tive coragem de falar nada. Não era uma coisa que eu queria ou sabia fazer. Não sabia como vender meu corpo. Desisti e pedi dinheiro emprestado para um

amigo que era a fim de mim. Ele me deu 150 reais. “Quando puder, você me devolve.” Nunca mais o vi…

Depois que voltei dessa viagem, feliz de verdade como há muito tempo não me sentia, e nem sei por que, meus pais nem se viraram da

TV para responder ao meu “cheguei!”.

Nunca mais minha mãe conversou comigo. Não sentiria nada se meu pai nunca mais olhasse na minha cara. Mas nunca mais ouvir “minha filha” na voz acolhedora da minha

mãe talvez seja o mais perto da solidão da morte que já cheguei. Nunca mais queria sentir isso de novo. Nunca mais.

O incômodo silêncio foi se arrastando pelos dias, pesado. Seja lá o que fosse que tivessem pensado em fazer comigo, como me mandar para um colégio interno, me emancipar

para poder me colocar para fora de casa ou coisa parecida, eu não esperaria para ver. Meu tempo estava se

esgotando.

Comecei a comprar jornais apenas para ler os classificados. Vi que minha inexperiência seria um obstáculo intransponível. Todos os caminhos me levavam à única

coisa que uma garota como eu poderia fazer. Assim começou minha peregrinação pelas casas que colocavam os anúncios nos jornais, atrás de garotas entre 18 e 25 anos,

para ganhar os tais “mil reais por semana”.

Visitei casas de massagem, privês e até boates. No dia 8 de outubro de 2002, vinte dias antes de completar 18 anos, tomei coragem de falar

para o meu pai que eu

sairia de casa para trabalhar. Repetindo que não me daria mais nada se eu fosse embora, perguntou como é que eu esperava sobreviver. Na minha santa ingenuidade,

porém firme no propósito de afrontá-lo, falei que seria massagista para executivos. Mas eu realmente pensava assim, pois os anúncios diziam isso: massagem. Uma menina

de uma casa que visitei também falou que só a massagem era um preço “x”; se o cliente quisesse sexo, pagaria a diferença para a menina no quarto. Eu ia ficar mesmo

só na massagem. Ele, claro, ficou uma fera. Estava pronta e disposta a apanhar novamente.

No lugar da mão pesada, veio a voz, confusa, desorientada, desconcertada. Ele começou a conversar comigo. Nervoso, sim. Bravo, sim. Mas tentava conversar comigo.

Tarde demais para começar a conversar. Ele não tinha o menor jeito para isso. Eu

insistia, sinceramente, na ingenuidade: “Mas pai, é só massagem, não é sexo. Eu não vou fazer sexo, só vou fazer a massagem”. Tudo o que ele não havia falado comigo

a vida inteira, e especialmente desde que foi estabelecido o “voto de silêncio” em nossa casa, vomitou naquela noite, O que ele queria, de verdade, era me fazer

desistir de ir embora. Ouvi tudo calada. Meu silêncio alimentava sua verve. Puta… Vagabunda… Piranha… As frases sucediam, como se ele nem parasse para respirar.

Abatido, terminou a conversa deixando escapar um desejo (será?), uma quase-sentença de morte: “Toda puta tem Aids. Eu lamento muito que vá morrer sozinha, aidética,

no Emílio Ribas”. Então tá: se para ser livre tivesse de ser puta, era o que eu seria. E se tivesse que morrer, que assim fosse.

Eu já havia transado com muitos homens. De alguns, nem me lembrava mais. É certo que há outros inesquecíveis. Como um cara supercarente que apareceu um dia. Ele

era claramente complexado e inseguro. Triste. Uma hora, como quem está longe, conversando consigo mesmo, começou a cantarolar a música que estava tocando. Confesso

que fiquei emocionada com aquela cena. Eis ali um homem que precisava de refúgio. Mas não foi só por isso que ele me marcou. Quando eu vi o corpo dele nu, levei

um susto.

Primeiro porque o cara era magérrimo. Segundo, tinha um pau enorme! Acho que é o maior que já vi. O programa foi péssimo, pois estava preocupada com o que ele estava

sentindo. Ele precisava

de ajuda e eu não sabia o que fazer… Além disso, não conseguia chupar direito. Era tão grande que só entrava a cabecinha (modo de dizer) na minha boca. Na hora

de colocar a camisinha, então, foi um parto. Era muito apertada para ele e fazia o

pau amolecer. Mesmo assim, deu para transarmos um pouco. Foi uma das poucas vezes

em que senti o pau bater no meu útero. Uma sensação nova, afinal. Ele gozou batendo punheta em cima dos meus peitos, despejou um litro de porra e se foi. Fiquei

com uma impressão estranha de que tinha faltado algo naquele programa. O quê? Quem sabe eu devesse ter dito alguma coisa. Sei lá, deve ser mesmo apenas impressão.

Mas sei bem como é estar angustiada…

Em dezembro de 2003, já havia comprado um computador para mim. Era um jeito de compensar os momentos de solidão. Sempre fui maluca por navegar na internet e tinha

descoberto a febre dos blogs. Todo mundo estava fazendo o seu e parecia ser uma coisa interessante, divertida. Se a curiosidade matou o gato, no meu caso não foi

bem assim. Decidi procurar no Google por blogs de garotas de programa, só para ver como era a vida, o dia-a-dia de outra menina como eu, comparar. Na internet

tem de tudo, não tem? Surpresa: não encontrado! Busquei de novo, com todas as ferramentas que existem na rede. Nada!

Eu vivia sozinha, coisa que detesto. Tenho medo, sei lá. Eu tinha conhecido uma moça realmente do bem:

a Gabi, que tinha um flat no mesmo prédio que eu e que hoje é minha melhor amiga. Numa noite de baixo-astral, interfonei para ela vir ficar comigo, mas ela não podia.

Fiquei quase maluca. Assim decidi escrever no blog tudo o que eu queria ter dito para ela naquela noite. Alguém ia ver. Quem sabe se minha família não veria? O que

eu queria, de verdade, era que qualquer pessoa viesse me socorrer, me salvar. Da minha vida, da minha história. De mim.

Para dar um jeito naquela angústia, escrevi no meu blog um desabafo muito forte falando de tudo isso. Eu estava muito deprê. Fiz um resumo da minha vida e escrevi

que não valia a pena fazer programa e que, se pudesse voltar no tempo, nunca teria escolhido esse caminho. Isso num blog de uma garota de programa… No dia seguinte,

um pouco melhor, resolvi deletar tudo. As pessoas iam pensar que, além de puta, eu era louca. Acho que tudo aconteceu por causa do Natal, que estava perto. Eu pensava

na minha mãe, na minha casa. Meu entusiasmo pelo blog esfriou um pouco e eu deixei para lá.

No dia 1. de janeiro de 2004, pensei: “Vou retomar o meu blog”. Já que era uma espécie de diário, tinha tudo a ver começar nesse dia. Foi por isso que decidi contar

a minha rotina em vez de desabafar. E ia poder, também, registrar de modo diferente tudo o que eu anotava na minha agenda, principalmente os detalhes de cada cliente.

Sempre pensei em fazer uma estatística mais detalhada quando eu saísse da putaria. Só para ter uma idéia, posso garantir, com cem por cento de certeza, que setenta

por cento deles são casados. Sempre pergunto o motivo para a traição, levando-se em conta que estão pagando por sexo. Há apenas dois tipos de resposta: enjoaram

do sexo com a mulher ou as mulheres não são tão liberais a ponto de eles declararem todas as suas fantasias… Apenas vinte por cento são solteiros convictos que

não têm tempo ou saco para balada (ou não conseguem conquistar ninguém) e os dez por cento restantes são noivos ou comprometidos.

Nunca imaginei que isso fosse ser interessante para alguém. Mas ia ser divertido para mim. Imaginem, poder classificaras transas, contar como eram. Dessa maneira

inventei as cotações

– Transa mecânica: mecânica mesmo, sem química, quando estou cansada, sem paciência. Fico olhando no relógio, controlando o

tempo, que não passa; faço tudo com má vontade, apesar de fazer o máximo para o cliente gozar rápido e ir embora. Tem vezes que até bufo. “Vamos mudar de posição?”,

sugere o cliente. “Humpf”, respondo, sem saco total, já que não posso soltar um palavrão. Rs… Não me esforço nem para gemer.

– Namoradinho: quando rola química, como se fôssemos namoradinhos de verdade, naquele clima de primeira transa entre os dois, no motel, se beijando, se abraçando,

com carinho, sexo cuidadoso, papai-e-mamãe (sim, papis e mamis).

– Putaria: é clima de putaria, precisa traduzir? Eu me sinto puta de verdade, faço sexo com vontade, não sei bem explicar… Namoradinhos, mesmo com entusiasmo,

não me considero puta. Aqui, sim.

Nessa época, o meu blog era no site Terra. Uma noite, quando fui postar, escrevi a senha e apareceu uma mensagem dizendo que a senha estava errada. Era uma sexta-feira

e por essa razão eu teria que esperar até segunda para poder resolver isso.

No domingo, resolvi tentar novamente e, para a minha surpresa, vi que tinha um post novo e, pior,não era o que eu tinha escrito! Então, concluí que alguém tinha invadido o meu computador e roubado a minha senha… Chorei muito de raiva! Na segunda liguei para

o Terra e consegui entrar em contato com o responsável pelo webloger. Expliquei o que tinha acontecido e eles conseguiram recuperar a minha senha depois de uma semana.

Em todos esses dias, a pessoa continuou postando se passando por mim.

Fiquei com medo de que essa pessoa escrevesse algo que me comprometesse. Mas não ocorreu isso. A pessoa se contentou em me imitar direitinho, tanto que em alguns

posts eu até pensava que era eu mesma que tinha escrito aquilo tudo.

Recuperei a senha, deletei tudo o que eu não tinha escrito e expliquei aos leitores o acontecimento. Não passou um mês e roubaram a senha novamente. Dessa vez foi

bem pior, pois além de a pessoa se passar por mim, ainda postou os arquivos que roubou no Word do meu computador. Eram arquivos muito comprometedores já que alguns

capítulos do meu livro foram copiados e colados no blog.

Dessa vez chorei mais e fiquei várias noites sem dormir, imaginando quem poderia ter feito isso e por qual motivo. Consegui recuperar minha senha nova-

mente, porém desisti de manter o blog. Até que um amigo que trabalha com informática me sugeriu que eu tivesse um site particular, no qual poderia continuar com

o blog e ainda colocar minhas fotos.

Foi com este site que comecei a ter sucesso. Com as fotos conquistei a credibilidade das pessoas que não acreditavam que aquele blog era de uma garota de programa

de verdade. Eu recebia vários e-mails de pessoas duvidando de mim. Muitos, inclusive, achavam que era um homem fantasiando tudo aquilo.

Foi com esta mudança de endereço eletrônico que o meu blog adquiriu repercussão. Até porque muitos pensaram – e ainda pensam – que o fato de as minhas senhas terem

se perdido foi um lance de marketing para chamar atenção.

De uma hora para outra havia tantos visitantes no blog que fiquei assustada. Algo tão espantoso acontecia que o próprio iBest me chamou para dizer que o meu blog

estava em segundo lugar no top link. Eu não tinha noção de que isso pudesse ir tão longe. No começo, me assustei com essa repercussão. É estranho imaginar que um

monte de gente sabe da sua vida, como se estivessem invadindo minha casa e revirando as gavetas. Ao mesmo tempo, descobri que era isso exatamente o que eu queria:

que as pessoas lessem sobre a minha vida. Ao menos sobre a pública. Não a da Raquel, mas a da Bruna Surfistinha.

Fui dormir pela última noite naquela casa. A conversa tinha me abalado muito. Realmente, meu pai não confiava em mim. Nem na minha capacidade de me cuidar sozinha.

Ele fez com que me sentisse uma inútil. Prometi a mim mesma que essa seria a última vez que permitiria isso. Vindo dele ou de qualquer outro homem na face da terra.

Alternei momentos de angústia e de grande excitação. Em poucas horas, seria livre para ir onde quisesse, para fazer o que me desse vontade.

Amanheceu um dia lindo. Não sei por que, mas algo acontece dentro de mim quando o sol brilha num dia frio. Cria-se uma sensação de irrealidade, de sonhar acordada:

aquela luz forte no céu azul, mas que não pode aquecer. Uma linda mentira. Essa foi a primeira coisa que vi, quando acordei às dez horas da manhã. Logo o encantamento

desse cenário de sonho deu seu lugar à realidade de minha dúvida mais cruel: é isso mesmo o que desejo fazer da minha vida? Sabia que, se saísse, seria para sempre.

Não teria volta. Nem por mim, nem por meus pais.

Preparei minha mochila do colégio com algumas peças de roupa. Não poderia sair dali com uma mala.

Ao vasculhar o armário, vi cada peça de roupa e lamentei não poder levar todas elas. Separei umas calcinhas, uma roupinha para dormir, uma camiseta, uma blusinha,

alguns biquínis para trabalhar e, com a roupa do corpo mais o casaco que vestiria, estava feita a minha bagagem. Minha gatinha só observava a movimentação. Tentei

escondê-la dentro da bolsa, mas ela não topou. “Bem”, pensei, “mais uma coisa que vai ficar para trás, com minhas roupas da Guaraná Brasil e da Pólo Ralph Lauren,

meu quarto e minhas lembranças.”

Fui para a sala e fiquei sentada à mesa de jantar, fingindo fazer minha lição de casa. Na verdade, fiquei olhando para minha mãe, silenciosa, de costas para mim,

preparando algo na cozinha. Reconhecia que ela não merecia passar por tudo aquilo. No entanto, era o que eu queria fazer. Ou o que tinha que fazer. Pensava que,

em pouco tempo, ela perderia duas filhas: minha irmã mais velha e também minha madrinha, que conheceu um americano pela internet e se mudou para se casar lá e não

voltou mais.

Estava eufórica por um lado, embora triste por outro. Olhando aquela

mulher que um dia abriu mão da própria vida para ficar com um marido, cuidar da casa e dos filhos,

até de mim, que não era sua filha de verdade, senti uma imensa vontade de dividir com ela minha decisão. Mostrar que nada daquilo era por ela, mas por mim. Eu até

poderia seguir seus passos e abrir mão de mim, fazer tudo igual ao que ela tinha feito. Bati o martelo.

Sem perceber, comecei a colocar tudo o que queria dizer a ela no papel. Não foi premeditado. Foi espontâneo e sincero, como há muito tempo eu não conseguia ser.

Agradeci por tudo o que tinha feito por mim, pedi perdão pela dor que ela sentiria, mas deixei claro que estava indo buscar a minha felicidade, onde quer que ela

estivesse. Desejei que, dessa maneira, ela e meu pai também pudessem voltar a ser felizes, sem mim, sem meus problemas. Reli a carta, que parecia a de um suicida.

Não conseguiria escrever nada diferente, porém. De certa maneira, algo morria em mim naquele dia.

Deixei a carta em cima da mesa, apanhei o fichário e a mochila. Eu sempre saía pela porta da

cozinha. Passei por minha mãe, que estava fazendo o almoço, de costas

para mim, encostada na pia. “Tchau, mãe.” Ela não me respondeu. Ela não se virou. Eu sabia que era para nunca mais. Ela não. Fiquei parada na porta um segundo, olhando

para ela. Ela não se virou. Me arrependo tanto do abraço que não tive coragem de dar naquela hora. Eu amo minha mãe. Ela não sabia. Ela não se virou. Não veio nenhuma

palavra, nenhum gesto. Nem dela, nem meu. Me virei. Em silêncio, fechei a porta atrás de mim. Tchau, mãe.

O diário de uma garota

de programa

Quarta, 27

PRIMEIRO PROGRAMA

Perfil do cliente: a princípio, doidinho. Depois, até que ficou legalzinho. E é muito safadinho. Não rolou química nem afinidade.

Estilo do programa: mecânico.

Fato interessante: ele comeu minha boceta pensando que fosse o cu Mas a culpa não foi minha. Eu juro.

Fato engraçado: ele jurou que eu tinha fumado um beck. Não era verdade. Eu juro.

Primeiro tempo: nos chupamos, mas ninguém gozou assim. Ainda bem. Daí, cavalguei até ele virar os olhinhos.

Segundo tempo: fiquei de quatro e fizemos anal… ops… vaginal, até ele gozar.

Desde junho de 2004, meus relatos no http://www.bruna surfistinha.com eram todos desse jeito: padronizados, bem bisicos, sem muitos detalhes. Era uma época em que chegava

a fazer até dez programas por dia. Não sobrava muito tempo para escrever tudo. Eu só tinha tempo, entre um programa e outro, de anotar tudo em um papel para depois

jogar no computador. Mesmo assim, por causa do blog, virei uma espécie de musa inspiradora para as punhetas de meninos e marmanjos. E comecei a ter certa notoriedade.

Não era bem isso o que eu queria, mas, já que aconteceu…

Em agosto de 2004, a revista Época me procurou para entrevistas; uma edição especial da Capricho (Mina) também fez matéria comigo. Dei entrevista para a Vzp, diversos

jornais e umas revistas de sacanagem; apareci em vários sites, participei de chats e, um dia, me chamaram para ir ao Superpop, programa da Luciana Gimenez. Foi uma

chance dupla: primeiro, ia mostrar meu rosto para que acreditassem que eu existia e era eu mesma (sim, tinha um monte de Brunas Surfistinhas falsas começando a pipocar

por aí usando o meu nome, como a tal Samara, que se passou por mim no Orkut e até criou uma comunidade:

CHEGA DE BRUNA SURFISTINHA.

Em segundo lugar, acreditava que meus pais iam me ver e perceber que, sim, faço programa, mas

estou bem.

Não estou jogada em qualquer canto. Mesmo as entrevistas eu dei pensando nisso. Até mesmo a do Pânico, da rádio Jovem Pan (divertidíssima). Por sinal,

eles foram muito gentis, por mais que eu tivesse medo de que fossem zoar comigo – o que não aconteceu. Eles até evitaram abrir para perguntas dos ouvintes. Sei lá,

acho que é uma lição de vida para todos nós. Torço para que, no dia em que tudo isso passar, eu possa voltar a me aproximar deles.

No dia em que fui ao Superpop, os efeitos da exposição aconteceram antes mesmo de eu aparecer no ar

– ou de sair de casa. O carro da produção chegou na recepção do flat e o motorista pediu para me avisarem. O porteiro, claro, perguntou se eu ia aparecer na TV e,

mais óbvio ainda, assistiu ao programa, que é ao vivo. Não precisa dizer que a história se espalhou. Isso não mudou a forma como os funcionários daqui me tratam.

Só teve uma época em que o gerente pegou no meu pé, dizendo que os outros hóspedes estavam se queixando de eu trazer muitos homens para cá. Eu nunca vi ninguém no

corredor… Era coisa dele mesmo. No entanto, ao verem que me tornara “famosa”, acabou. Passaram a me respeitar mais (não que tenham me desrespeitado em algum momento).

Percebi que o blog, além de atrair muita gente que nunca tinha feito programa comigo, também podia ser um “algo mais” de diversão para os meus clientes. Eles adoram

ver qual é a minha avaliação de sua performance. Tanto que há, até hoje, um aviso: OS PROGRAMAS MAIS “INTERESSANTES OU BACANAS” DA SEMANA. CASO VOCÊ TENHA FEITO

PROGRAMA COMIGO NESTE PERÍODO, E EU NÃO RELATEI, NÃO SE DESESPERE. TENTE NOVAMENTE QUANDO PUDER… E muitos realmente tentam muitas vezes. Bom para os negócios,

não?

Quando a vida estabilizou numa média de cinco ou seis programas diários (de segunda a sexta, só depois do almoço), resolvi apimentar meu blog. Mas tudo sempre pensando

em não entregar o cliente. Só ele sabe de quem estou falando. Há coisas como uma tatuagem, o lugar de um piercing, algum detalhe do corpo ou de personalidade que

podem acabar dedurando o cara. E essa não é a minha intenção. A gente sabe que tem meninas de programa que acabam infernizando a vida do cliente, até chantageando.

Mas essa, definitivamente, não é a praia da Surfistinha. Meu barato é outro.

Uma coisa que todo mundo sempre pergunta é se consigo ter prazer com meus clientes. Claro que sim. Por mais profissional que seja, se rola química, afinidade e tesão,

não vou aproveitar? Afinal, brincar em serviço é o meu serviço. Sou paga para realizar as fantasias dos outros (por mais que eu tenha as minhas, guardo para mim. Como “pessoa jurídica”, tenho minha rotina

profissional de fazer as coisas, é um “padrão Bruna de qualidade”). Apesar desse lado lúdico e de “conhecer” tanta gente, confesso que rola uma solidão. Não consigo

ficar sozinha. Tenho de cuidar de alguém e sentir que alguém cuida de mim. Não sou uma máquina. Percebo que vai acontecer algo legal quando o cliente está realmente

a fim de me dar prazer. Se é isso o que ele está querendo, por que não dar a ele? Ou, ao menos, me esforçar. É certo que às vezes não rola. Nem com o que costumo

chamar de “esforço interior” – exercícios de pompoarismo, com os músculos da vagina, que potencializam a força do orgasmo. Eu uso essa “força” para os clientes que

fazem questão de que eu goze. Para ir mais rápido… Esses, certamente, não entram no blog…

Apesar dessa vida que levo, consegui ter, além de muitos rolos, alguns namorados. O último durou quatro meses. É, pouco tempo. Mas, para quem tem uma rotina como

a minha, foi um longo tempo. Nos conhecemos por intermédio de um amigo comum. Bem, não era amigo, até virar. Esse menino começou a me ligar diversas vezes, e começamos

a conversar muito. Comigo, virou amigo, nada de transa. Não faço sexo com meus amigos. Uma noite, eu estava à-

toa noflat com a Gabi e falei para ele vir e trazer um amigo para ficar com ela.

Nada de putaria: queria companhia mesmo, jogar conversa fora e, se rolasse algo, seria pessoal. Ele trouxe, sim, um amigo: meu namorado! Quando nos vimos, foi uma

coisa de filme, arrebatadora e recíproca. Ele sabia quem eu era, que fazia programas e tudo. Mesmo assim, ficou comigo naquela noite e começamos a namorar. A sensação

era ótima: voltava a ser apenas uma mulher que gostava de um homem e que sentia algo por ele.

O namoro era como o de qualquer menina da minha idade: sair, cinema, dançar, ficar bundando em casa, rir, conversar e, lógico, transar. Sei bem separar o sexo de

trabalho do sexo com o namorado, com amor, ou paixão, ou seja lá qual for o barato da relação. Minha cabeça e meu corpo estão cansados, mas quando encontro a pessoa

que está comigo, eu quero transar, de verdade. Às vezes, é um esforço para mim. Mas é péssimo não dar atenção a quem está com você. Afinal, o cara já agüenta a barra

de namorar uma puta e eu ainda deixo faltar logo sexo para ele? Mesmo sabendo de saída tudo sobre mim, assim como os que vieram antes dele, ele não conseguiu segurar

a onda da minha profissão e da exposição que começou a rolar com o blog e tudo mais, meus “15 minutos de fama”.

Que pena: esses minutinhos vão passar e eu vou continuar aqui, sendo eu mesma.

No meio de todo aquele brilho, de toda a atenção que recebia por causa das entrevistas e, claro, dos programas de

tv, teve gente que me conhecia antes e ligou para

mim, numa boa, para conversar. Teve gente, por outro lado, que ligou para me lembrar de que ser uma puta tem seu preço em qualquer tempo. Um menino que estudou comigo

no Bandeirantes telefonou e me deixou péssima. “Ê, Raquel, quem diria, hein?… Virou puta! O que mais me doeu

é que o propósito dele era me machucar. “Todo mundo

que estudou com a gente está no segundo ou terceiro ano da faculdade e só você virou puta.” Ele me inferiorizou, me tocou de um jeito que eu não queria. Com certeza

eu já tinha pensado nisso, em como era a vida de quem tinha estudado comigo, que todos estavam progredindo. Até hoje não sei bem por que ele fez isso. Ele não ganhou

nada me violentando desse modo. Porém, já que eu saí na chuva…

Tem quem acredite que garotas de programa não sentem carência, vontade de transar só por transar. Que babaquice. Seria o mesmo que dizer que um cozinheiro não sente

fome. Deve ser por isso que, mesmo trabalhando com sexo, eu viva me masturbando. Quero chegar ao prazer com minhas próprias

fantasias. A última aprontada que eu dei como “pessoa física” acabou levando o cara a ser demitido. Isso mesmo! Quem me contou o desfecho da história foi a Nataha,

uma amiga que vira prima nos programas surubinha quando os clientes não trazem sua própria “priminha”. Nós duas tínhamos ido a uma balada normal, por diversão, lá

nos Jardins. Cheguei a contar no blog, dizendo em que casa tinha sido (é provável que algum dedo-duro tenha lido e, por causa disso, o cara foi demitido). Fiquei

maus, mas era ele que estava trabalhando, não eu… Eu tinha bebido muito. Quando isso acontece, fico fácil, perco mesmo o controle. Aliás, acho que toda mulher

nessa situação fica fácil e com tesão.

A casa tem dois ambientes. Eu estava no andar de cima, onde ele trabalhava como garçom no bar. Percebi que ele me olhava – e fiquei olhando de volta, claro, paquerando

na caradura. Em certo momento, fui buscar outra cerveja no balcão; ele se insinuou para mim e eu não agüentei: dei um beijo nele. Pedi a ele um guardanapo para eu

anotar meu telefone, para a gente se encontrar fora dali. “Não, vamos fazer o seguinte: eu vou ao banheiro, você dá um tempo e me segue. A gente fica lá, rapidinho.”

Foi mais de meia hora… Quando a gente saiu, tinha uma baita fila na porta. O banheiro é unissex e eu saí morrendo de vergonha. Fazia um tempão que eu não transava com quem eu quisesse. Precisava transar assim, com quem eu estivesse a fim – e não por dinheiro.

Já tinha perdido as esperanças de me envolver novamente com alguém. Mas, no dia dos namorados de 2005, me senti uma garota comum de novo: fui pedida em namoro. Isso

mesmo!!! Pelo Pedro. Ele era casado e sempre falava de como o casamento ia mal, que não se separava por causa das duas filhas pequenas. Nunca tinha saído com nenhuma

garota de programa, mas acompanhava o meu blog, tinha ficado curioso para me conhecer e, como ele mesmo disse, “virou meu fã”. Acabamos fazendo sete programas juntos,

desde que nos conhecemos, até virarmos amigos. Há poucos meses ele tinha se separado da mulher. No dia 12 de junho, surpresa!, ele me pede em namoro. Ele já havia

dado umas indiretas de que me bancaria se eu quisesse parar de fazer programa. Expliquei (e ele, com muita maturidade, entendeu)

que saí de casa para ser independente. Ele me respeita e segura bem a barra de estar comigo. Tanto que já moramos juntos e temos planos para o futuro. Sinto que

ele é o amor da minha vida. Minha

mãe certamente iria adorá-lo. Sempre brinco com ele

que, depois dessa minha experiência, aprendi todas as desculpas que os maridos dão para as mulheres para pular o muro. Ele vai ter de ser muito criativo se algum

dia cair nessa tentação… Coitado do Pedro.

Quinta, 4

QUINTO PROGRAMA

Êêêê! Até que enfim alguém me chamou para ir ao swing.!! Chegamos às 23 horas e saímos às quatro. Ele já tinha saído comigo umas três vezes. Com ele me deu, pela

primeira vez, uma sensação estranha no final da noite. Acabei chorando no quarto de casais. Hoje tava lotado, mas não estava legal, apesar de ter um pessoal bonito.

Havia muitos molequinhos sozinhos, muita mulher fresca e, no labirinto, às quintas, é permitida a entrada de homens sozinhos. Ou seja: não dá pra ficar passeando

por lá, porque fica parecendo urubu em cima da carniça. Sério… Mas o som estava excelente, com muito flashback. Tocou até uma das minhas músicas preferidas (não

sei o nome, mas sei que é do The Mamas & The Papas). Para azar dos homens, quinta também é dia de show de stripper só para a mulherada. Não fui puxada para o meio

dos shows, como quase sempre acontece. Até mesmo porque eu não estava a fim. Trocamos três vezes de casal, mas apenas uma delas valeu a pena pra mim. No primeiro,

a menina era muito gostosa, mas ela não ficava com mulher, para minha infelicidade. Quando tirei minha blusa, ela apertou meu peito e disse “é silicone, né, fia?”.

Me chamar de fia , ainda mais no meio do sexo, foi brochante.

Ri na caradura. Odeio que me chamem de filha. E muito menos de fia

Ninguém merece ficar ouvindo sinopse de filme no meio do swing.

O parceiro dela também era um moleque chato, que queria gozar no meu peito. Não aceitei, mas ele insistiu. Como não gosto de ver ninguém insistindo em algo que não

estou a fim de fazer, acabei falando que deixava. Na hora em que ele foi gozar, eu sacaneei: saí da frente e nenhuma gotinha de porra caiu em mim. A segunda

troca foi com um japinha de quem eu até gostei, mas na hora “H”, não curti. Estávamos transando comigo de quatro sobre o sofá e ele de pé. Ele metia muito forte.

Para me proteger, virei o rosto de lado para não bater o nariz com tudo na parede. Porém, acabei batendo a cara com tudo. Vi estrelinhas. Ele foi um pouco agressivo,

mas, por sorte, gozou rapidinho. Meu cliente fingiu que gozou com a “fia” só para eles saírem

rapidinho e a gente poder transar só os dois. Comigo, ele gozou.

Depois da terceira troca (não tive coragem de pegar a menina do cara, apesar de estar louca pra chupar ela), um carioca muito bêbado me puxou e começou a falar que,

assim que me viu, lembrou do filme Perfume de mulher, e começou a contar o filme todo.

Antes da terceira, paramos no labirinto. Tinha uma tia de uns quarenta anos que estava se amassando com o marido, mas chupando um cara. Uma chupadora convicta: do

nada, aparece um outro pau e ela abocanha. De repente, começou a aparecer homem de tudo quanto é tipo e de tudo quanto é lado para ser chupado pela tia. Pelas minhas

contas, ela chupou sete paus. Até pensei que o povo ia começar a tirar senha. Até aí, tudo bem. Se bem que eu, mesmo sendo a puta, nunca chuparia sete

pau num swing.

Notei que a tia não olhava pra cima. Ela não sabia a quem pertenciam aqueles

paus todos. Apenas ia pegando e enfiando na boca. Eu só prestava atenção no naipe dos

caras: todos nada a ver, para ser bem-educada. Quem sou eu para criticar alguém? Mas confesso: fiquei assustada. Vai ver era sua fantasia. Não sei se tive mais nojo

da tia ou dos homens. Homem é PHODA! Homem, quando quer gozar, enfia o

pau no primeiro buraco que vê pela frente. Só não enfia num buraco na parede porque ela não

geme. Ainda não tinha chupado nenhuma boceta. Estávamos na salinha onde entram apenas casais e ela começou a tocar em mim. Depois, sugeriu que fôssemos para um quarto

privativo. Nos chupamos muito, mas eu não consegui gozar.

Porém, ela gozou na minha boca. A boceta dela é do jeito que eu gosto, bem carnudinha.

Com todos os relacionamentos que já tive trabalhando, aprendi que só vão me respeitar novamente como mulher no dia em que eu parar de fazer programa. E tem mais

uma lição nisso tudo: quando isso acontecer, e eu conhecer o homem da minha vida, aquele com que vou casar e ter filhos, não vou contar que já fui garota de programa.

Decidi: quero deixar tudo isso no passado. Esquecer? Não, isso é impossível… Vamos dizer que colocarei essa experiência toda de vida numa gaveta que nunca mais

vou abrir. Com certeza vou morrer de medo de ele já ter me conhecido como Bruna ou que descubra de outra forma. Mas tenho que deixar claro: não sou uma “madalena

arrependida . Espero que com o Pedro seja diferente, pois eu o amo muito e quero que ele saiba me respeitar.

Uma das histórias clássicas de todo conto de fadas de prostituta é encontrar o homem que vai tirar você “dessa vida”. Não é que aconteceu comigo? Era um cliente

de 62 anos, viúvo e supercarente. Toda semana ele me procurava para fazer programa, mas quase nunca transávamos, era mais conversa (e isso é mais comum do que você

imagina). Um dia, ele falou na lata: “Quero conversar muito sério com você”. Me disse que o filho, com quem ele morava, ia fazer

intercâmbio por um ano, e ele ia ficar sozinho. Me convidou para morar com ele e pediu para eu parar de fazer programa. Ele bancaria tudo o que eu quisesse: estudos,

academia, roupas, ia me dar mesada, desde que eu parasse com tudo.

Falei que ia pensar e realmente pensei muito. No fundo, não ia parar de fazer programa, mas ia fazer só com ele, também por dinheiro. Um único cliente para o resto

da vida (dele, o que poderia ser muito tempo). Minha recusa não teve nada a ver com ele, que eu curtia de verdade, nem pela oferta generosa, pois ninguém estava

enganando ninguém ali. Pô, eu saí da casa dos meus pais para ter mais liberdade. Me prender a um homem, sem ser por amor, era trocar uma gaiola por outra. Dourada,

sim, mas uma gaiola. Sei que me daria muito bem nessa, que recusei a oferta da vida de muitas garotas que vivem como eu, mas também tive medo de que ele morresse

e jogassem a culpa em mim. Acho que já vi muito disso em filmes e na vida real por aí.

Se não é todo dia que alguém resolve “salvar sua alma guardando seu corpo”, algo muito comum, depois de fazer muitos programas com o mesmo cara, é virar amizade.

Hoje, todos os meus amigos são meus ex-clientes. Meu melhor amigo chegou a fazer cinco ou seis programas comigo. E, em muitos deles, a sacanagem ficou em segundo lugar. Em seguida, passamos a nos falar diariamente, sem essa de falar só para marcar foda. Um dia, tive de deixar bem claro: “A partir do momento em

que nos tornarmos amigos, acabou o sexo”. Não dá, não rola. Eu não consigo fazer sexo com os meus amigos. Virou amigo, acabou a relação garota de programalciente.

Esse é o meu limite pessoal.

Fato interessante: um deles já tinha feito programa comigo.

Fato triste: cheguei em casa às cinco e meia da manhã…

Terça, 12

TERCEIRO PROGRAMA

Fui a uma féstinha com três caras, eu e mais uma “prima”, mas um deles ficou só de voyeur. Combinamos de nos encontrar no bar All Black e de lá fomos para o apartamento

de um deles. Foi uma surubinha bem tranqüila. Primeiro, fiquei com um no quarto. Transamos um pouco e ele só gozou depois, no oral. Depois, ficamos bebendo um pouco

e conversando com os outros dois na sala, enquanto a menina entrou no quarto com o mesmo que eu estava. Acabei deitando no sofá enquanto um me chupava e, para facilitar,

o ajudei com o meu dedinho. E gozei gostoso. O outro continuou apenas nos observando sentado no outro sofá. Quando o “casalzinho” saiu do quarto, fomos nós dois,

então. Transamos um pouco, eu cavalguei e ele gozou no oral.

Na rotina de uma garota de programa, o ginecologista tem papel fundamental. É fato que ele tem de saber que eu faço programa. Isso é questão fechada. De que outro

jeito ele pode me orientar de verdade, me examinar com o rigor que eu preciso para me proteger? O medo da Aids é o maior. Faço meus exames a cada três meses e sempre

é a mesma agonia. Sempre vou com muito medo. Sim, me protejo, uso camisinha em todas as relações… Quer dizer: quando o cara me come, sem chance de engaiolar o

passarinho sem preservativo. Mas, no oral, confesso que me arrisco.

Meu médico me explicou que, num oral, as chances de contrair são menores, mas estão lá. Principalmente se eu tiver uma pequena ferida na boca, que é coisa que a

gente nem percebe que tem. Sei lá, às vezes, vou com a cara do cliente, me sinto à vontade, confio no que estou vendo e caio de boca ao natural. Depois, bate aquele

arrependimento.

Não dá para saber se o cara tem alguma coisa só de olhar. Mas nunca engulo. Até deixo o cara gozar na minha boca, curto, mas não engulo (raramente, vai). Eu diria

que cinco em cada dez das vezes eu caio nessa besteira de chupar sem camisinha. Mas quero cair cada vez menos.

Cuidar do corpo sem cuidar da cabeça seria bobagem, né? Saúde ok, cabelo ok (para inveja de um monte de meninas, meu cabelo é liso mesmo, não precisa de chapinha.

Que sorte a minha, não?), pele hidratada, unhas sempre bem-feitas. Quando o “kit trabalho” está checado, me dou o direito de ter um tempo para mim. Toda segunda-feira

à tarde vou à terapia. Engraçado, pois a vida inteira convivi com psicólogos. Agora, no entanto, é diferente.

No começo, não sabia quem é que eu estava levando às consultas: a Raquel ou a Bruna. Hoje não está mais tão difícil. Já passou aquela fase de querer contar toda

a sua história para o terapeuta, que é a mais chata e a mais complicada. Hoje, sempre faço um resumo da semana anterior, mas falando de como os acontecimentos afetam

a Raquel, o que eu penso da vida, meus planos. É óbvio que, no meio de tanta conversa sobre mim, acaba rolando falar também de clientes e de programas. São coisas

indissociáveis.

Sexta, 22

PRIMEIRO PROGRAMA

Molequinho, mas que já é gente grande e bem sussu. Rolou afinidade. Programa em clima de putaria. Fato engraçado: ele pediu para que eu desse um tapa na cara dele.

Dei com dó. Não consigo bater nem que me paguem para isso. Fato interessante: fui “Bruninho”… Foi divertido e saí da rotina.

No primeiro tempo, quando comecei a chupá-lo, ele de cara me pediu para fazer um fio terra .

Ok. Esse, fiz sem dó. Então, ele pediu para que eu colocasse a cinta

que tem um pau de borracha acoplado (óbvio). Mas ele já tinha perguntado pelo telefone se eu tinha, então não foi nenhuma surpresa. Com o

pau em mim, me transformei

no “Bruninho” e ele se tornou minha fêmea. Não fizemos nada demais. E ele nem desmunhecou. Apenas o comi “de frango assado”, enquanto ele batia uma punhetinha. Depois,

pediu para eu sentar na beirada da cama para que ele sentasse no meu

pau E ele gozou assim. Acho que comi ele gostoso. Segundo tempo: foi a vez de ele me comer.

Cavalguei, dei de quatro, mas ele gozou de novo na punhetinha.

Tem cliente que fica com medo de me ligar por causa de preço. Certeza que tem menininha cobrando 300, 400 reais, mas acaba fazendo um, dois, ou, no máximo, três

programas por semana, quando muito. Sei que, com essa tal “fama” da Bruna Surfistinha, poderia até cobrar mais. Mas gosto do que faço, não nego. Faz eu me sentir

desejada, coisa que nunca fui. E, óbvio, tem o lado prático. Sou uma pessoa prática: quanto mais programas fizer, mais grana entra. Não perco tempo negociando preço.

Um monte de caras fica chorando desconto, vantagens, exclusividade. Não tenho saco para nada disso.

Da mesma forma que entrei nessa, sei que vou sair. Não quero ser puta o resto da vida. Trabalho para isso. Primeiro, me livrei de cafetão. Não vou dar metade ou

mais do que ganho para ninguém. Sim, tem um lado ruim, de trabalhar sozinha, que é a insegurança. Atender em um

flat ajuda um pouco. E eu sempre fico com o telefone

do cliente – e confirmo se é dele mesmo. “Me dá seu telefone. Se pintar alguma emergência, eu posso ligar e desmarcar.” Como eles sempre marcam com algumas horas

de antecedência, fica sussu. Até hoje, nunca tive problemas com clientes agressivos. Ainda bem, né? Meu maior medo, no fundo, é encontrar algum amigo do meu pai

ou das minhas irmãs. Já fiz programas com caras

conhecidos, colegas do Bandeirantes até (que não me reconheceram, mas eu fiz questão de contar: “Eu me lembro de você de algum lugar, mas não é da putaria. Nós estudamos

no mesmo colégio”).

Sozinha, trabalhando de segunda a sexta, faço de 25 a 30 programas por semana. Tem dias que rola até mais de cinco, mas também não é legal passar muito disso. Cada

programa, aqui no meu flat, dura uma hora e, por 200 reais, faço oral e vaginal. Se quiser anal, já sobe para 250 reais (isso foi depois da minha participação no

Pânico, em junho, quando resolvi aumentar um pouquinho, já que a procura aumentou:

antes, durante muuuuito tempo, cobrava 150 reais e 200, respectivamente). Quantas vezes der para fazer nessa uma hora. E não precisa pagar motel,

flat, nada:

está tudo incluído. A menos que o cliente queira ir ao motel ou queira me chamar no hotel dele (aí, cobro o dobro, por conta do deslocamento). Com esse jeito de

trabalhar, já me permito folgar nos finais de semana. Com todo mundo não é assim? Por que com uma garota de programa seria diferente?

Mesmo encarando tudo o que faço como uma relação comercial, confesso que já tive pena de cliente. Lembro que pensei: “Pô, esse cara economizou um tempão para estar

aqui comigo”. Como eu soube? Ele juntou tudo em notas de um real. Isso mesmo!

Acho que era troco de busão, disso, daquilo. Juntou 150 reais, em notas de um real. Ele ficou muito sem

graça. Você se importa se eu pagar assim. Não, não me importo.” Aí, ele me entregou aquele bolo de notas e eu contei para conferir enquanto ele terminava de se arrumar.

Na hora, senti um aperto. Imagina o trampo para juntar tudo aquilo. Só que, dar de graça, no way. Pena, pena, negócios à parte. Outra coisa que percebi nessa profissão

é que ela também tem época de cheia e de vazante. Já tinha falado que, no começo do inverno, a procura aumenta. Pois é: no final do ano também, que é quando chega

o décimo terceiro. Do salário normal, não dá para tirar. Então, o cara aproveita a grana extra. Dá certo orgulho saber que o cara trabalhou o ano inteiro e se deu

de presente de Natal um programa com você. Esses, até por conta disso, são os que aproveitam melhor a trepada.

Um lado interessante de ser freelancer é agir conforme suas próprias regras e convicções. Criar um padrão próprio de serviços. Lembra a história das toalhas e dos

lençóis? Pois é: pelos clientes, e por mim também, higiene é básico. Tanto que, aqui noflat, tem uma toalha para cada cliente. Até brinco que, quando parar de fazer

programa, não sei o que vou fazer com elas. São quase oitenta! Às vezes, eu perdia o controle de deixar juntar um tanto para mandar para a lavanderia e, quando ia

ver, não tinha mais muitas limpas. O jeito

era comprar novas. Virou coleção… Todas branquinhas, pois fica evidente que estão limpas de verdade. O sabonete dos meus clientes é líquido (acho nojento aqueles

sabonetes em barra cheios de pêlos grudados, arghh, passando de um cliente para o outro). Os lençóis, a menos que um cliente sue muito ou suje de gel, eu faço render

ao menos dois programas, sem dramas. As camisinhas eu providencio. A menos que o cliente seja do tipo GG, que geralmente traz as suas camisinhas de tamanho apropriado.

Segunda, 9

QUARTO PROGRAMA

Repetimos a festinha. Os mesmos caras da outra vez. Só que hoje só tinha dois, o voyeur e o dono do apartamento. Hoje teve “festa no apê”. Infelizmente, o caubói

não estava… Como das outras vezes, a festinha foi tranqüila. Além de mim, tinha de novo a outra “prima”. Enquanto eu fiquei com o voyeur na sala, o outro

casalzinho

foi para o quarto. No começo, fiquei sem graça, porque o voyeur (que hoje NÃO ficou só olhando) nunca tinha feito com garota de programa. E digo mais: nunca tinha

pulado a cerca!!! Um homem quase perfeito, né? Pelo menos até hoje… Ele me perguntou se não pular a cerca é bom ou ruim. Nem queiram saber a minha resposta.

Ele foi todo carinhoso comigo… Primeiro ficamos nas preliminares durante um tempão. Depois, o chupei e ele gozou rapidinho. Ficamos esperando para fazer a “troca”.

O outro saiu do quarto e já veio para cima de mim de pau duro. Me chupou um pouco e depois me pegou num papis e mamis até gozar.

Tomei um baita susto. Numa noitada, eu estava numa fissura danada e desatei a cheirar. Nem tenho idéia de quanta coca eu aspirei naquele dia. Até uma hora em que

parecia que eu não estava mais dentro de mim. Meu corpo não respondia. Minha respiração estava estranha. Um gosto estranho subiu à minha boca. Overdose. Me olhei

no espelho e me vi morta: sem cor, a boca seca, os lábios roxos. Meu coração, de tão disparado, parecia que ia explodir. Apaguei. Eu sou espiritualista, pois acredito

que, do “outro lado”, tem tudo o que temos aqui. Até hospital. Quando acordei, jurava que estava no hospital “de lá”. Estava literalmente numa bad trz. No meio daquela

sensação irreal, até hoje não sei se foi viagem minha, se eu vi, se sonhei, mas me lembro de conversar muito com um homem, que não sei quem é mesmo, que me dizia

um monte de coisas. Inclusive para eu parar de cheirar pó. Não tinha nenhum homem por lá, como percebi depois que acordei de verdade. Desse dia em diante prometi

para mim mesma que eu ia parar.

Com a cara limpa, fiquei firme na minha decisão. Foi difícil, claro. Tive crises de abstinência, sentia muita falta e achava que estava morrendo toda vez

que acontecia. A Gabi me ajudou muito nessa época,

me apoiou e me agüentou desse jeito. Eu meio que me internei em casa: parei de ir às baladas, pois sabia onde encontrar cocaína facilmente e não queria mais.

Quando pintava aquela fissura, aquela vontade louca de cheirar, pensava na minha vida, naquele sonho (viagem ou alucinação), no tal homem do hospital. Lembrava que

tinha entrado na vida de programa pensando em parar. Mas cheguei a gastar 50, 70 reais por dia aspirando quatro gramas de coca. Da pura, a mais cara. Nada de pó

de giz ou de mármore. Era mais de 50% do que eu ganhava. Dessa maneira eu não chegaria a lugar nenhum. Ou, talvez, só no hospital do “outro lado”.

Após resolver parar com a cocaína, fiquei um pouco mais centrada nos meus objetivos, vi como tinha sido boba de cair nessa. Por isso que tudo o que vem fácil vai

mais fácil ainda… Dinheiro “fácil” também vicia. E eu não quero passar o resto da minha vida fazendo programa. Juntando tudo isso ao fato de eu ser muito prática,

criei um plano para me ajudar na disciplina. Eu chamo de “meta do pé-de-meia dos quinhentos”. Muita gente acha que é juntar 500 mil reais. Mas não é bem assim.

No começo, quando saí de casa, achava que ia fazer programa pelo resto da vida. Com o tempo, vi que é um trabalho cansativo, física e psicologicamente. Em 2004 surgiu

a idéia de parar de fazer programa, voltar a estudar. Na verdade, caiu a ficha de que preciso parar de fazer programa. Não sei quando, mas preciso parar um dia.

Só que, para isso, tenho que ter algum objetivo, alguma meta. Sentei um dia aqui noflat e viajei alto, pensando em quanto custa um apartamento. Fiquei fazendo várias

contas de coisas que quero comprar – e de quanto precisava para poder comprar e me tornar “ex” de tudo isso, somando o que eu já havia economizado. Daí, deu um absurdo,

tipo quinhentos paus. Haja programa. Eu não tenho como conseguir isso… Fui eliminando um monte de coisas da minha “lista de desejos” e cheguei a 300 mil reais.

Ganhar essa dinheirama, a princípio, assusta, porque

é muito dinheiro. Mais ainda se a gente considerar

o jeito que ganho. Então tive a idéia de dividir esses

300 mil reais em cotas, para amenizar – e eu não sentir tanto. A conta foi simples: 300 mil divididos por

quinhentas cotas seiscentos reais cada cota. Peguei

uma folha de papel e numerei de um a quinhentos.

Assim, a cada seiscentos reais que consigo guardar

e depositar no banco, vou lá e risco o número correspondente da cota. Quando não tiver mais o que

riscar, saberei que consegui os 300 mil. Na verdade, já cortei outros itens da minha lista e baixei o total para 200 mil. Mas acho que, se chegar nos 100 mil, eu

paro, mesmo não comprando apartamento. De qualquer forma, já tenho meus planos de futuro. Tem meses que consigo economizar até 8 mil reais. Parece que o futuro está

chegando.

Desse tempo, vou levar algumas “heranças”: dois piercings (um no umbigo, outro no lábio inferior, O terceiro, na sobrancelha, eu tirei) e três tatoos (o escorpião

do meu signo na parte de trás do ombro, o coração na virilha e uma frase na nuca, que eu tinha feito para meu ex-namorado – da qual me arrependo muito:

“Thanks Du”. Quando o namoro acabou, mudei para “Thanks Dad”). Além do que “levo”, tem coisas que deixei de conquistar. Fiquei dois anos sem estudar, e a sensação

de que tinha esquecido tudo foi inevitável. A certeza também. Antes, eu não gostava de estudar. Mudei de idéia. Quero ir para a faculdade assim que tudo isso terminar.

O supletivo eu acabo em 2005 e, se conseguir passar no vestibular, em 2006 vou para a faculdade de Psicologia. Conheço um monte de gente que nunca foi para a faculdade,

mas que é empresário e ganha superbem. No entanto, tiveram “paitrocínio”. Como eu não tenho mais, me liguei que, para me dar bem na vida, vou

ter que estudar, querendo

ou não, gostando ou não.

Terça, 28

PRIMEIRO PROGRAMA

Hoje foi a terceira vez que fiz programa com eles. Hoje eles não quiseram ir ao motel e vieram no meu

flat. Brincamos bastante juntos. Primeiro, ela fez um strip

rápido, mas o suficiente para os três se empolgarem. Então, eu a chupei até ela gozar na minha boca. Bom, o que mais curti foi quando ela estava cavalgando nele

enquanto eu fazia um beijo grego nela. Ah, também quando ela estava me chupando enquanto eu chupava ele… Transei um pouco com ele, mas, surpresa, eles transaram

bastante só os dois, comigo de voyeur. Eu não gozei, embora ela tenha me chupado bem gostoso. Ele também não gozou, pois ficou “segurando”. Já ela gozou muito! Umas

quatro vezes, pelas minhas contas.

Engraçado: todos os meus amigos, hoje, já foram meus clientes. Com certeza você não saca a amizade no primeiro programa. Como eu já disse, com amigos eu não transo.

Nem pessoal nem profissionalmente.

E deixo claro isso.

Alguns conseguem ficar no fio da navalha: continuam clientes, mas chegam muito perto de virar

amigo, porém sem virar. É gostoso receber algumas demonstrações de carinho deles. Muitos ligam só para saber como estou ou, quando eu não escrevo no blog, só para

saber se está tudo bem. Ganho muitos presentes, também. Ganhei um CD que o cara personalizou com uma foto minha na capa. O máximo! Outro dia, escrevi no blog que

queria ler o Anjos e demônios e um cliente trouxe o livro para mim. Também é bom na Páscoa, no meu aniversário…

No ano passado, comemorei meu aniversário em um clube de swing. Na época, eu estava realmente viciada nesse tipo de lugar. Poder transar com homens e mulheres, gozar

de montão, aquele clima de putaria. Assumo que era um prazer pessoal. Tem o lado baladinha, dançar, beber e conversar, e tem, claro, o lado suruba. Mas não é tudo

no mesmo ambiente (tem gente que acha que sim). Daí, pensei: “É meu aniversário, eu curto o lugar e tem um monte de gente que nunca teve coragem de ir no swing porque

acha que é só inferno”. Então, esse monte de gente que não tinha coragem teve de ir ao swing naquele dia. Na época, eu estava namorando e, lógico!, ele também foi.

Eu queria reunir tudo: meu aniversário, a curtição, realizar a fantasia com meu namorado lá dentro, e com meus amigos também. Fantasia realizada (a minha e a de

um monte de gente, diga-se de passagem). Presentão.

Para quem não tem coragem (mas muita curiosidade), vou contar como é. Aqui em São Paulo tem um monte deles. Só aqui em Moema são sete! Na fachada, porém, é um lugar

comum. Não está escrito “casa de swing”. Como a maioria, eu imaginava que, logo ao entrar, já se via um monte de gente na suruba, pelado, transando. Na verdade,

tudo começa como uma balada normal: bar, mesinhas, pista de dança. É onde rola paquera entre os casais, mas sem putaria. Quando você começa a se aventurar para os

fundos da casa é que o bicho pega. Para chegar aos quartinhos, você passa por um labirinto (que nem todas as casas têm):

um corredor escuro, bem apertado, que força todo mundo a se encostar, se esfregar. Dá para tirar um sarro gostoso, sem vergonha, pois mal dá para ver quem está ali.

Seguindo mais adiante, você chega nos quartinhos. Eles têm paredes de treliça, para quem está fora poder ver tudo o que rola lá dentro (ou o que conseguir ver, pois

a luz também não é de estádio de futebol). Tudo funciona para que a coisa seja mais tátil do que visual. Apalpou, gostou do que pegou, libere geral. É uma coisa

de maluco: chega a ter vinte casais transando ali, ao mesmo tempo. Para os casais mais recatados, que ficaram xavecando no bar ou na pista, geralmente há quartos

privativos para quem quer trocar com outra dupla apenas.

O saco, nesses lugares, é que é dificil encontrar gente bonita. São geralmente pessoas casadas, entre 30 e 45 anos. Nem muito novos, nem muito velhos. Há várias

casas que não permitem garotas de programa. Eu mesma já fui barrada em uma dessas. Supõe-se que a garota esteja lá pela grana – e não pela tara, pelo prazer. E eles

não curtem isso: os casais estão em busca de troca com outros casais, casados de verdade.

Quinta, 31

SEGUNDO PROGRAMA

Foi um programa sussu, sem grandes lembranças. Depois que acabou, ele me falou que tinha prazer com o sadomasoquismo. Ele é sado, que fique bem claro. Só que não

fala pelo telefone com a menina porque curte bater de surpresa. Ele me contou que, quando chegou aqui, não teve coragem de me bater. “Você não tem cara de garota

de programa. Você é meiguinha e eu não tive coragem de te bater. Vou marcar com outra amanhã só para bater nela.” Ainda bem…

Já ouvi muitas histórias de meninas que passam por apuros no trabalho. Acho que, por pura sorte, eu não coleciono muitas passagens assim.

Uma das coisas que mais me incomoda no meu trabalho é a hora de cobrar. Eu tenho vergonha. A ponto de, duas vezes, o cliente ter saído sem pagar – e eu, sem cobrar.

No ritual

do programa, a grana é o último ato. Isso, tipo consulta de psicólogo. Para esses dois, tive de pedir para a Gabi (que é quem atende meu celular e marca os programas,

pois nossas vozes são mesmo parecidas) ligar e cobrar. Vexame, não? Um desses “caloteiros involuntários” voltou para pagar. O outro, que já estava meio longe, ficou

com os dados da minha conta e fez um depósito. Gente do bem. Outras duas vezes aconteceram no swing um catalão de pouco papo (não só pela língua, mas porque era

caladão mesmo) aproveitou que fui ao banheiro e se mandou! O outro eu até perdôo: tinha bebido muito, passei mal e dou razão a ele de não ter querido pagar.

É engraçado, pois essa coisa com dinheiro parece que teve um fim. Depois de tudo o que aprontei em casa, com meus pais, por causa de grana, levar alguns calotes

é uma forma de “resgatar” tudo aquilo. Mas outras coisas também “vingaram” minhas aprontadas. Quando ainda estava na Franca, tinha uma amiga, a Taísa. Ela era meio

vagabunda (no sentido de não gostar de trabalhar, mesmo) e não ganhava muito dinheiro. Como eu não tinha conta bancária, guardava meu dinheiro na gaveta. Sempre

saquei que desaparecia dinheiro de lá, mas nunca acreditei que pudesse ser ela.

Mesmo depois que fomos “saídas” da Franca e tivemos que trabalhar no privê em Moema, e os pequenos furtos continuaram, nunca tive coragem de encostar ela na parede.

Não queria perder a amizade por causa de dinheiro. Uma noite, fomos a uma balada na Vila Madalena. Na época, eu ainda cheirava. Além disso, naquela noite, bebi muito.

Passei mal, óbvio. No banheiro, achei que ela estava me ajudando, mas senti a mão dela vasculhando meu bolso. Na hora, chapada, nem me atinei. Quando fomos pagar

a conta eu percebi que meus 50 reais haviam sumido. Arrastei a Taísa até o banheiro, junto com outra menina, e revistei ela inteirinha. Nada. Na base da força, fiz

ela tirar a roupa e… surpresa: os meus 50 reais estavam enroladinhos dentro da calcinha dela. Foi a gota

d’água. Ao chegarmos no privê, subi atrás dela no quarto,

achando que ela ia me matar. Quase. Muito cabelo puxado, arrancado, unhadas, tapas. Fechei o caso com uma frase: “Você tem inveja de mim porque eu trabalho e você

não. Não tem nada, não. Amanhã, eu ganho outro dinheiro”.

Outra vez que perdi dinheiro ocorreu no primeiro flat. Eu tinha economias de 3 mil reais que simplesmente sumiram. A Gabi disse que, se fosse com ela, ficaria maluca. Eu nem quis saber se foi a empregada ou algum cliente. Quer saber a verdade? Nem fiquei triste. Acho que, de certo modo, terminei de pagar pelo que

fiz. Aqui se faz, aqui se paga? Pois é…

Chega desse papo. Vou mudar de assunto. Acho realmente muito bacana quando o cliente desabafa comigo. Tem meninas que acham um porre ficar ouvindo história de cliente.

Mas eu sinto que isso é uma parte importante do “pacote” para aqueles homens. Eles não vêm aqui só para despejar esperma. E eles contam coisas que, muitas vezes,

não confessariam nem para os amigos ou a esposa. Há alguns que, passado o susto, chegam a ser engraçados. Um desses chegou aqui e me disse que havia comprado dois

tijolos de maconha. Fiz cara de assustada (e estava mesmo). Ele me pediu desculpas, mas tinha de contar para alguém. Outra vez, o cliente fez questão de dar a entender

que era o “fodão”, bandido mesmo. No entanto a transa rolou legal, sem sustos. Mas ao voltar do banho, ouvi ele falando no celular: “Não. Vê se ele morreu mesmo.

Porque, se não morreu, a gente tem de acabar com isso”. Ele falava tanta gíria no meio que eu quase não entendia nada. Fiquei olhando bem para ele, e ele tinha cara

de bandido. Sabe aqueles que aparecem na TV no noticiário? Comecei a chorar, mas sem ele perceber. Fiquei bem assustada.

Outras vezes, o susto é outro… Eu curto tentar adivinhar como é o pau do cara assim que ele chega. Às vezes, acerto. Principalmente quem tem

pau pequeno. Engraçado,

com esses está na cara. Não sei explicar, embora acerte quase noventa por cento das vezes. Já o bem-dotado é sempre um enigma. Tem uns caras que chegam e você imagina

horrores. Na hora do vamos ver, não que seja pequeno, mas não é o monumento que parecia ser. E há outros que, de saída, você não dá nada por ele. Na hora que o bicho

pega, surpresa! Já cheguei a pensar “não vai caber”. Se nem no teste da boca passa (só entra a cabeça, mesmo), imagina na

boceta. Confesso que em certas horas o tamanho

assusta. Mas sempre se dá um jeitinho.

Pessoalmente, não me ligo muito na estampa do homem ou no “tamanho”. Alguns clientes, claro, eu gostaria de ter conhecido em outra situação. Sim, me envolveria com

eles: homens gentis, às vezes bonitos, outras vezes não. Eu, como todas as mulheres, sonhava com o homem ideal. O meu tinha de ser fiel. Hoje, já desisti de encontrar…

É o sonho do tipo impossível. Mas quero um companheiro. Que me dê carinho, proteção – e que vai ter isso de volta também. Que tenhamos cumplicidade entre nós. E

não faço, mesmo, questão de beleza. Ela não me importa mais.

Segunda, 9

QUINTO PROGRAMA

Cliente tosco, cavalo, mas tentou ser bacana. Definitivamente, não rolou química, muito menos afinidade. No começo, o programa foi em clima de putaria, mas depois

ficou mecânico. Muito mecânico. Meu, eu fiquei com nojo dele, principalmente da língua dele, e quase chorei. Juro. Daí, respirei fundo e lembrei que quem está na

chuva é para se molhar… Ele me chupou, mas eu não consegui gozar de jeito nenhum, por causa do nojo que eu estava da língua dele. Como

ele demorou para gozar,

dei um jeito de contornar a situação:

chupei um pouco o cara e depois fiquei de quatro. Ele gozou na minha

boceta.

Pois é, nem sempre rola de tirar prazer do trabalho. Mas algumas coisas que a gente faz nos levam ao arrependimento. Não, não vou dar uma de falso moralista aqui,

calma. Acho que, nessa minha trajetória, mais, na minha vida, a única coisa de que me arrependo é ter feito o bendito filme pornô. No meu prédio também moram muitos

garotos de programa e alguns atores. Eu sempre encontrava alguns deles no elevador e já

vinha aquele papinho: “Você é bonita”, “Não quer tirar umas fotos para eu levar para a produtora onde eu faço filme?”. Ouvi isso tantas vezes que acabei mandando

as

fotos para a tal produtora. Eu tinha consciência de que não eram filmes “de arte”. Me chamaram, e lá fui eu.

Não foi legal. Nem um pouco legal. É tudo muito artificial, tudo montado. Pára toda hora, o diretor pede para parar, manda cortar. Difícil fazer alguma coisa natural

desse jeito… Você não pode olhar para a câmera, porque tem de ficar o tempo todo olhando para o bendito diretor para ver os sinais que ele faz. Quando ele levanta

a mão assim, é para mudar de posição. De outro jeito, é para gemer. Transar com um monte de gente à sua volta e prestando atenção às ordens do diretor é uma loucura.

Foi interessante porque fiquei sabendo como se faz. Não foi bacana porque vi realmente que não é nada daquilo que a gente pensa que é…

Também não foi legal por outras razões. Eles pagam muito mal. Você ganha pouquíssimo. Dá até vergonha de falar quanto eu ganhei porque é miséria, mesmo. Tá bom:

foram 500 reais. Isso só acontece porque é no Brasil. Nos Estados Unidos, é profissão.

O respeito é outro.

Sei que tudo que aconteceu na minha vida, a fama (sei, sei, passageira), as coisas boas e ruins, de certo modo ainda me assustam. Outro dia, eu estava andando aqui mesmo na rua em que moro, de óculos escuros, quando um cara passou do meu lado, encostou em mim

(eu achando

que era assalto) e falou: “Com licença. Desculpe a pergunta, mas você é a Bruna Surfistinha? .

Não, não sou. Ah, então, desculpa, eu me enganei.” Fiquei supersurpresa,

jamais esperava que alguém fosse me abordar na rua, me reconhecer. Fiquei tão sem reação que acabei falando que não era eu. Que bobagem…

Por outro lado, já aconteceu de eu ficar com um cara, numa troca de casais em um swing, e ele virar depois e dizer: “Você é a Bruna Surfistinha, não é? Eu sempre

fui louco para fazer programa com você, mas agora tive de graça”. Quis matar o cara. Brincadeira. O que mais me surpreende é que as reações das pessoas, na maioria

das vezes, ao me reconhecer, é de neutralidade, embora já tenha ouvido risinhos enquanto eu passo em algum lugar. Mas sempre fica a dúvida: será que era de mim que

estavam rindo, de mim que estavam falando? Tenho a impressão que sim, mas não sei qual o motivo. Não vou ficar na neurose por causa da vida que levo. Ficar imaginando

que algum carinha está me paquerando por saber quem eu sou. Sou uma mulher bonita. Não vou ficar pensando: “Ah, ele me reconheceu e por isso está dando em cima”.

É loucura demais. Prefiro deixar a vida me levar

Às vezes, de madrugada, vou até o prédio em que meus pais moram. Fico na calçada um tempão. Na última vez, fui com meu namorado: meia hora ali, bebendo, enquanto

passava o filminho na minha cabeça. Eu vejo o portão e uma menina saindo assustada, com a roupa do colégio, uma mochila com algumas roupas, desnorteada, sem rumo

– caminhando para o destino que ela escolheu. Lá de baixo, olho as janelas de luzes apagadas no apartamento em que um dia morei. Lembro do meu quarto clarinho, das

persianas (nada de cortinas ou bichinhos de pelúcia:

tenho asma e rinite…), dos móveis da Babilândia (não queria móveis de “adulto”) e da grande bancada onde eu estudava e fazia as lições de casa, e passava horas

no meu computador ou vendo a tv. Não vou até lá esperando um encontro casual. Pelo horário, quero mesmo é não ver ninguém. Não estou preparada. Nem eles. Como meu

pai reagiria? E minha mãe? Nós nunca mais nos falamos. Vamos nos encontrar um dia, claro, mas vai ser planejado. Quando eu parar de fazer programa, quero provar

para eles que fiz, mas parei. Tomara que isso facilite a volta. Terminada a cerveja, dou uma última passeada pela frente do prédio, olho ao redor e vejo que muita

coisa mudou. Inclusive eu.

Hoje vejo que tudo o que vivi era uma fase pela qual eu tinha que passar. Sem arrependimentos.

Três anos que eram para ter acontecido assim: putaria, drogas… Se não fosse desse jeito, longe dos meus pais, talvez eu ainda estivesse tomando antidepressivos.

E eles, nem sei… Por que foi bom? Por vários motivos (eu sempre vejo o lado bom das coisas). Desde o meu amadurecimento como pessoa, de aprender a cuidar e a gostar

de mim, ao aprendizado de conviver com todo tipo de gente, de respeitar o lado de cada um. Antes, eu não respeitava ninguém. Se não fosse garota de programa, nunca

aceitaria as diferenças das pessoas. Conheci todo tipo de gente: boas e ruins. A melhor delas foi a Gabi. Por tudo isso, sei que fiquei menos egoísta. Penso até

que, se tivesse sido mais paciente, dado um tempo, se não tivesse saído de casa, a minha relação com meus pais um dia ia voltar ao normal. Nada de Bruna, só Raquel.

Mas só a Bruna podia chegar a essa conclusão. Nunca a Raquel…

No ano passado, fui visitar minha avó, mãe da minha mãe, que está numa clínica geriátrica em Sorocaba. Ela me mostrou um álbum de fotos. Entre elas, nenhuma do meu

pai. Mas havia uma de minha mãe, segurando no colo minha sobrinha recém-nascida, que, por motivos óbvios, eu ainda não conheço. Não sei por que, mas resolvi pegar

a foto emprestada e tirar um xerox. Guardo essa foto na minha agenda. De certo modo, me aproxima da

minha mãe – e da maternidade. Eu penso nos meus filhos (quero ter dois: um casalzinho, gêmeos, de preferência). Me imagino uma mãe mais companheira, liberal. Sou

a prova viva de que não adianta você prender filho, proibir. Tudo bem que os meus filhos poderão sair e voltar a hora que quiserem, desde que eu leve e busque. Ter

vivido a minha vida me mostrou bem onde está a maioria das armadilhas do mundo. Eu caí em todas elas.

Quinta, 21

Àsvezes, paro para pensar no que fiz na minha vida, mas sei que colherei os meus frutos, ou até que já os estou colhendo sem saber. Hoje fiquei relembrando todo

o

meu passado, sem depressão; apenas lembrei com saudades e com carinho. Se não fosse o meu passado, acho que não teria me tornado a pessoa que sou, não a puta que

sou, mas o meu outro lado, que poucas pessoas conhecem. É tão bom lembrar das risadas em família, das viagens, dos colegas do colégio, de tudo… Depois que fiquei

um tempão assistindo ao “filme” do meu passado, que passou apenas pelos pensamentos, limpei as lágrimas e levantei a cabeça. Gosto de chorar porque me faz bem.

Quando este livro estiver lançado eu não estarei mais fazendo programas. Não sei qual o dia exato de outubro, só sei que será antes do meu aniversário, O presente

que me darei.

Quero que os meus pais saibam e entendam que tudo o que fiz foi em nome da minha felicidade. Para sermos felizes precisamos sempre abrir mão de algo. Não dá para

termos tudo de uma vez.

Tive a sorte de encontrar o homem da minha vida fazendo programas. Sei que não são todas as garotas de programa que têm o mesmo final feliz.

Vou me aposentar, mas continuarei com o blog até o último dia de minha vida. Ainda quero escrever nele que “amanhã será o meu casamento” ou que “o meu filho nasceu

ontem”. E espero mais ainda que estes fatos aconteçam com o Pedro.

O importante na vida é nunca desistir de buscar a felicidade.

fim

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