A pudica ou o encontro imprevisto – despreocupado em Paris – Marques de Sade

O sr. Sernenval, que contava aproximadamente quarenta anos, e que possuía doze ou quinze mil libras de renda que despendia de modo despreocupado em Paris, não se ocupando
mais do comércio do qual outrora fizera sua profissão, e se contentando, por sua total distinção, com o título honorífico de burguês de Paris, com vistas ao Conselho municipal, desposara havia poucos anos a filha de um dos seus antigos confrades, de mais ou menos vinte e quatro anos. Nada havia de tão viçoso, tão roliço, tão gorduchinho e branco quanto a sra. Sernenval: não fora ela feita como as Graças, mas era apetitosa como a mãe dos amores; não tinha o porte de uma rainha, mas possuía tamanha volúpia no conjunto, olhos tão ternos e cheios de langores, tão bonita boca, pescoço tão firme e torneado, e todo o resto do corpo tão propício a causar o nascimento do desejo, que bem poucas mulheres belas havia em Paris às quais se teria preferido. Entretanto, a sra. Sernenval, com tão diversos encantos físicos, tinha um defeito capital no espírito… uma pudicícia insuportável, uma devoção exagerada que ao marido impossibilitava persuadi-la de aparecer em suas reuniões sociais. Levando ao extremo a beatice, muito raramente a sra. Sernenval passaria uma noite inteira em companhia do seu marido, e, mesmo nos momentos em que ela condescendia conceder-lhe esse favor, era sempre com excessiva reserva, – uma camisola que jamais despia. Uma abertura artisticamente acrescentada ao pórtico do templo do hímen só permitia a entrada com as cláusulas expressas de nenhuma apalpadela desonesta, e de nenhuma conjunção carnal; ter-se-ia enfurecido a sra. Sernenval, se se tivesse desejado ultrapassar os limites que a modéstia dela impunha, e o marido que tentasse, talvez corresse o risco de não mais cair nas boas graças dessa casta e virtuosa fêmea. O sr. Sernenval ria-se de todas essas beatices, mas, como adorasse a mulher, condescendia em respeitar-lhe as tibiezas; vez por outra, entretanto, tentava aconselhá-la; provava-lhe, do modo mais claro, que não é passando a vida nas igrejas ou junto aos padres que uma mulher honesta cumpre realmente os seus deveres, dentre os quais os primeiros são os de sua casa, por força, negligenciados por uma devota; e que ela haveria de honrar muito mais as imagens do Eterno, vivendo de uma maneira honesta no mundo, do que indo trancafiar-se nos claustros; que havia infinitamente mais perigo em se tratando dos modelos de Maria do que desses amigos verdadeiros dos quais ela recusava ridiculamente a companhia.
– É preciso que eu vos conheça e que vos ame tanto quanto faço – acrescentava a isso o sr. Sernenval – para que não me inquiete convosco durante todas essas práticas religiosas. Quem me assegura que algumas vezes vós não vos esqueceis sobre o leito macio dos levitas, em vez de ao pé dos altares de Deus? Nada há de tão perigoso quanto todos esses padres patifes; é sempre falando de Deus que seduzem nossas mulheres e filhas, e é sempre em seu nome que eles nos desonram ou enganam. Acreditai-me, cara amiga, possível é ser honesto em qualquer lugar; nem na cela do bonzo, nem no nicho do ídolo, a virtude ergue seu templo, mas no coração de uma mulher casta, e as companhias decentes que vos ofereço nada têm que se alie ao culto que vós lhe deveis… Vós passais por uma de suas mais fiéis sectárias: creio nisso; mas que prova possuo de que realmente mereceis tal reputação? Eu acreditaria bem mais se vos visse resistir a astuciosos ataques; não é a mulher que se coloca na condição de nunca ser seduzida, cuja virtude é a que mais se pode apurar; mas a que está bastante segura de si mesma para se expor a tudo sem nada temer.
Sobre isso a sra. Sernenval nada respondia, pois que, de fato, não havia resposta para esse argumento, mas ela chorava – expediente comum das mulheres fracas, seduzidas ou falsas – e seu marido não ousava prosseguir com a lição.
As coisas estavam nesse estado quando um antigo amigo de Sernenval, de nome Desportes, chegou de Nancy para vê-lo, e para concluir, ao mesmo tempo, alguns negócios que tinha na capital. Desportes era um bon vivant, de idade semelhante à do seu amigo, e não odiava nenhum dos prazeres dos quais a natureza benfazeja permitiu ao homem fazer uso para esquecer os males com que o abate; ele não resiste absolutamente à oferta que lhe faz Sernenval de hospedá-lo em sua casa, regozija-se com a satisfação de vê-lo, e surpreende-se concomitantemente com a severidade de sua mulher, a qual, no momento em que toma conhecimento desse estranho na casa, recusa-se absolutamente a aparecer, e nem ao menos desce mais para as refeições. Desportes crê incomodar, quer se hospedar alhures; Sernenval o impede de fazê-lo, e confessa-lhe, enfim, todos os ridículos de sua terna mulher.
– Devemos perdoá-la, – dizia o marido crédulo ela compensa essas faltas com tantas virtudes que acabou obtendo minha indulgência, e ouso te pedir a tua.
– Assim seja, – responde Desportes – desde que não seja nada pessoal…. esqueço tudo, e os defeitos da mulher de quem estimo nunca serão, a meus olhos, senão qualidades respeitáveis.
Sernenval abraça o amigo, e só conversam sobre prazeres.
Se a parvoíce de dois ou três ineptos que, há cinqüenta anos, administram em Paris o negócio das mulheres públicas e, especialmente, a de um pulha espanhol que no último reinado ganhava cem mil écus por ano na espécie de inquirição da qual se vai falar, se o medíocre rigorismo dessas pessoas não tivesse estupidamente imaginado que uma das mais belas célebres maneiras de conduzir o Estado, um dos meios mais seguros do governo, uma das bases, em suma, da virtude, era ordenar essas criaturas a prestar conta exata da parte de seu corpo com que se regala ao máximo o indivíduo que a corteja; se não tivesse imaginado que, entre um homem que observa um seio, por exemplo, e outro que se ocupa de um quadril, há decididamente a mesma diferença que entre um homem probo e um canalha, e que aquele que se acha em um ou em outro desses casos (depende do que esteja em moda) deve necessariamente ser o maior inimigo do Estado, sem essas desprezíveis vilanias, como já disse; certo é que dois estimados burgueses, um dos quais tendo uma mulher beata, o outro sendo solteiro, poderiam ir passar muito legitimamente uma hora ou duas entre as moças; mas quanto a essas absurdas infâmias intimidando o prazer dos cidadãos, não ocorreu a Sernenval fazer sequer com que Desportes vislumbrasse esse tipo de dissipação. Este, percebendo isso e não imaginando os motivos, perguntou ao amigo por que ele já lhe tendo proposto todos os prazeres da capital, não lhe havia falado desse em absoluto. Sernenval objeta o estúpido inquérito, Desportes graceja sobre isso, e, não obstante as listas de m., os relatórios de comissários, os depoimentos de oficiais de polícia e todos os outros ramos dessa velhacaria estabelecidos pelo chefe quanto esse negócio dos prazeres do labrego de Lutécia* , diz a seu amigo que ele queria, com efeito, jantar com prostitutas.
– Escuta, – respondeu Sernenval – concordo, inclusive te servirei de introdutor como prova de meu modo filosófico de pensar sobre esse assunto, mas por uma delicadeza que espero não ma censures, pelos sentimentos que devo, em resumo, à minha mulher e que não está em mim dominar, permitirás que eu não partilhe de teus prazeres; eu os proporcionarei a ti, e ficarei nisso.
Desportes zomba um instante de seu amigo, mas vendo-o decidido a não se deixar de modo algum enveredar por esse caminho, a tudo consente, e partem.
A célebre S. J. foi a sacerdotisa no templo da qual Sernenval imaginou sacrificar seu amigo.
– É de uma mulher segura que precisamos, diz Sernenval – de uma mulher honesta; esse amigo, para o qual imploro vossos cuidados, está em Paris por pouco tempo apenas; ele não gostaria de levar más recordações para sua província e lá arruinar vossa reputação; diga-nos com franqueza se tendes o que ele precisa e o que desejais a fim de proporcionar-lhe o deleite.
– Ouçam, – retoma S. J. – bem vejo a quem tenho a honra de me dirigir, não são pessoas como vós que eu engano; vou, portanto, falar-vos como mulher honesta, e meus procedimentos vos provarão que eu o sou. Tenho o que vos interessa; trata-se apenas de pagar o preço justo, é uma mulher encantadora, uma criatura que vos arrebatará assim que a escutardes… é, enfim, o que denominamos um banquete de padre, e vós sabeis que a essas pessoas sendo meus melhores clientes, não lhes dou o que tenho de pior… Faz três dias que o bispo de M. por ela deu-me vinte luíses, o arcebispo de R. fê-la ganhar cinqüenta ontem e, ainda nesta manhã, ela me valeu trinta do coadjutor de… Eu vô-la ofereço por dez, e isso, na verdade, senhores, para merecer a honra de vossa estima; mas é preciso ser pontual no dia e na hora, ela está sob o controle do marido, e de um marido ciumento que só tem olhos para
* Cidade gaulesa sobre cujas ruínas edificou-se Paris. (N. dos T.)
ela; só podendo gozar instantes furtivos, é necessário não perder nem um minuto daqueles que tivermos combinado…
Desportes regateou um pouco; nunca uma prostituta fez com que se lhe pagasse dez luíses em toda a Lorena; quanto mais ele procurava baixar o preço, mais ela elogiava a mercadoria; em resumo, ele acabou por concordar e, no dia seguinte, dez horas em ponto foi a hora marcada para o encontro. Sernenval, não desejando de modo algum entrar a meias nesse divertimento, não concordou com um jantar, em troca do qual haviam combinado essas horas de prazer de Desportes, muito satisfeito por resolver tal assunto bem cedo para poder ocupar-se o resto do dia de outros deveres mais essenciais. Soa a hora; nossos dois amigos chegam à casa de sua encantadora alcoviteira; um boudoir, onde reina apenas uma luz tênue e luxuriosa, guarda a deusa, lugar onde Desportes vai oferecer em sacrifício.
– Felizardo filho do amor, – diz-lhe Sernenval, empurrando-o para o santuário – voa para os braços voluptuosos que a ti se estendem, e só depois me vem falar de teus prazeres; regozijar-me-ei por tua felicidade, e minha alegria será ainda mais pura porque não serei absolutamente invejoso.
Nossa catecúmena aparece; três horas inteiras mal bastam à sua homenagem; ele retorna, enfim, para assegurar a seu amigo que em sua vida nada viu de semelhante, e que a própria mãe dos amores não lhe teria proporcionado tantos prazeres.
– Ela é, portanto, deliciosa – diz Sernenval, meio inflamado.
– Deliciosa? Ah, não encontraria expressão que te pudesse reproduzir o que ela é, e mesmo agora que a visão deve esvanecer-se, sinto que não há pincel capaz de pintar as torrentes das delícias que me inundaram. Ela acrescenta às graças que recebeu da natureza essa arte tão sensual que lhes confere validade; conhece um certo tempero, possui no gozo tão real ardor que ainda me encontro inebriado… Oh! meu amigo, experimenta, rogo-te, por mais habituado que estejas às belezas de Paris, estou bem seguro de que me confessarás que nunca alguma outra valeu, a teus olhos, o preço desta aqui.
Sernenval, sempre firme, contudo emocionado por certa curiosidade, pede a S. J. para que faça passar essa moça diante dele, no momento em que sair do aposento… Ela consente, os dois amigos mantêm-se de pé para a poder observar mais, e a princesa passa com altivez…
– Pelos céus, – Sernenval transtorna-se quando reconhece sua mulher – é ela… é essa pudica que, não ousando descer dos seus aposentos por pudor diante de um amigo de seu esposo, tem a impudência de vir se prostituir em tal casa.
– Miserável! exclama, furioso…
Mas é em vão que tenta se lançar sobre essa pérfida criatura; ela o reconhecera bem no momento em que foi vista, e já ia longe da casa. Sernenval, num estado difícil de expressar, quer incriminar S. J.; esta se desculpa por sua ignorância, ela assegura Sernenval que há mais de dez anos, isto é, bem anteriormente ao casamento desse infortunado, essa jovem criatura participa de encontros em sua casa.
– A celerada!, – exclama o infeliz esposo, a quem o amigo tenta, em vão, consolar… – mas não, que isso termine! o desprezo é tudo que lhe devo; que ela seja para sempre alvo do meu, e que eu tenha aprendido a lição, por meio dessa cruel prova, que nunca é segundo a máscara hipócrita das mulheres que se as deve tentar julgar.
Sernenval retornou a sua casa; porém, não mais encontrou sua prostituta: ela já tomara seu rumo, e ele não se incomodou; seu amigo, não mais podendo suportar sua presença depois do acontecido, despediu-se dele no dia seguinte, e o infortunado Sernenval, isolado, com vergonha e cheio de dor, escreveu um in-quarto contra as esposas hipócritas, o qual não corrigiu em absoluto as mulheres, e que os homens jamais leram.

O sr. Sernenval, que contava aproximadamente quarenta anos, e que possuía doze ou quinze mil libras de renda que despendia de modo despreocupado em Paris, não se ocupando

mais do comércio do qual outrora fizera sua profissão, e se contentando, por sua total distinção, com o título honorífico de burguês de Paris, com vistas ao Conselho municipal, desposara havia poucos anos a filha de um dos seus antigos confrades, de mais ou menos vinte e quatro anos. Nada havia de tão viçoso, tão roliço, tão gorduchinho e branco quanto a sra. Sernenval: não fora ela feita como as Graças, mas era apetitosa como a mãe dos amores; não tinha o porte de uma rainha, mas possuía tamanha volúpia no conjunto, olhos tão ternos e cheios de langores, tão bonita boca, pescoço tão firme e torneado, e todo o resto do corpo tão propício a causar o nascimento do desejo, que bem poucas mulheres belas havia em Paris às quais se teria preferido. Entretanto, a sra. Sernenval, com tão diversos encantos físicos, tinha um defeito capital no espírito… uma pudicícia insuportável, uma devoção exagerada que ao marido impossibilitava persuadi-la de aparecer em suas reuniões sociais. Levando ao extremo a beatice, muito raramente a sra. Sernenval passaria uma noite inteira em companhia do seu marido, e, mesmo nos momentos em que ela condescendia conceder-lhe esse favor, era sempre com excessiva reserva, – uma camisola que jamais despia. Uma abertura artisticamente acrescentada ao pórtico do templo do hímen só permitia a entrada com as cláusulas expressas de nenhuma apalpadela desonesta, e de nenhuma conjunção carnal; ter-se-ia enfurecido a sra. Sernenval, se se tivesse desejado ultrapassar os limites que a modéstia dela impunha, e o marido que tentasse, talvez corresse o risco de não mais cair nas boas graças dessa casta e virtuosa fêmea. O sr. Sernenval ria-se de todas essas beatices, mas, como adorasse a mulher, condescendia em respeitar-lhe as tibiezas; vez por outra, entretanto, tentava aconselhá-la; provava-lhe, do modo mais claro, que não é passando a vida nas igrejas ou junto aos padres que uma mulher honesta cumpre realmente os seus deveres, dentre os quais os primeiros são os de sua casa, por força, negligenciados por uma devota; e que ela haveria de honrar muito mais as imagens do Eterno, vivendo de uma maneira honesta no mundo, do que indo trancafiar-se nos claustros; que havia infinitamente mais perigo em se tratando dos modelos de Maria do que desses amigos verdadeiros dos quais ela recusava ridiculamente a companhia.

– É preciso que eu vos conheça e que vos ame tanto quanto faço – acrescentava a isso o sr. Sernenval – para que não me inquiete convosco durante todas essas práticas religiosas. Quem me assegura que algumas vezes vós não vos esqueceis sobre o leito macio dos levitas, em vez de ao pé dos altares de Deus? Nada há de tão perigoso quanto todos esses padres patifes; é sempre falando de Deus que seduzem nossas mulheres e filhas, e é sempre em seu nome que eles nos desonram ou enganam. Acreditai-me, cara amiga, possível é ser honesto em qualquer lugar; nem na cela do bonzo, nem no nicho do ídolo, a virtude ergue seu templo, mas no coração de uma mulher casta, e as companhias decentes que vos ofereço nada têm que se alie ao culto que vós lhe deveis… Vós passais por uma de suas mais fiéis sectárias: creio nisso; mas que prova possuo de que realmente mereceis tal reputação? Eu acreditaria bem mais se vos visse resistir a astuciosos ataques; não é a mulher que se coloca na condição de nunca ser seduzida, cuja virtude é a que mais se pode apurar; mas a que está bastante segura de si mesma para se expor a tudo sem nada temer.

Sobre isso a sra. Sernenval nada respondia, pois que, de fato, não havia resposta para esse argumento, mas ela chorava – expediente comum das mulheres fracas, seduzidas ou falsas – e seu marido não ousava prosseguir com a lição.

As coisas estavam nesse estado quando um antigo amigo de Sernenval, de nome Desportes, chegou de Nancy para vê-lo, e para concluir, ao mesmo tempo, alguns negócios que tinha na capital. Desportes era um bon vivant, de idade semelhante à do seu amigo, e não odiava nenhum dos prazeres dos quais a natureza benfazeja permitiu ao homem fazer uso para esquecer os males com que o abate; ele não resiste absolutamente à oferta que lhe faz Sernenval de hospedá-lo em sua casa, regozija-se com a satisfação de vê-lo, e surpreende-se concomitantemente com a severidade de sua mulher, a qual, no momento em que toma conhecimento desse estranho na casa, recusa-se absolutamente a aparecer, e nem ao menos desce mais para as refeições. Desportes crê incomodar, quer se hospedar alhures; Sernenval o impede de fazê-lo, e confessa-lhe, enfim, todos os ridículos de sua terna mulher.

– Devemos perdoá-la, – dizia o marido crédulo ela compensa essas faltas com tantas virtudes que acabou obtendo minha indulgência, e ouso te pedir a tua.

– Assim seja, – responde Desportes – desde que não seja nada pessoal…. esqueço tudo, e os defeitos da mulher de quem estimo nunca serão, a meus olhos, senão qualidades respeitáveis.

Sernenval abraça o amigo, e só conversam sobre prazeres.

Se a parvoíce de dois ou três ineptos que, há cinqüenta anos, administram em Paris o negócio das mulheres públicas e, especialmente, a de um pulha espanhol que no último reinado ganhava cem mil écus por ano na espécie de inquirição da qual se vai falar, se o medíocre rigorismo dessas pessoas não tivesse estupidamente imaginado que uma das mais belas célebres maneiras de conduzir o Estado, um dos meios mais seguros do governo, uma das bases, em suma, da virtude, era ordenar essas criaturas a prestar conta exata da parte de seu corpo com que se regala ao máximo o indivíduo que a corteja; se não tivesse imaginado que, entre um homem que observa um seio, por exemplo, e outro que se ocupa de um quadril, há decididamente a mesma diferença que entre um homem probo e um canalha, e que aquele que se acha em um ou em outro desses casos (depende do que esteja em moda) deve necessariamente ser o maior inimigo do Estado, sem essas desprezíveis vilanias, como já disse; certo é que dois estimados burgueses, um dos quais tendo uma mulher beata, o outro sendo solteiro, poderiam ir passar muito legitimamente uma hora ou duas entre as moças; mas quanto a essas absurdas infâmias intimidando o prazer dos cidadãos, não ocorreu a Sernenval fazer sequer com que Desportes vislumbrasse esse tipo de dissipação. Este, percebendo isso e não imaginando os motivos, perguntou ao amigo por que ele já lhe tendo proposto todos os prazeres da capital, não lhe havia falado desse em absoluto. Sernenval objeta o estúpido inquérito, Desportes graceja sobre isso, e, não obstante as listas de m., os relatórios de comissários, os depoimentos de oficiais de polícia e todos os outros ramos dessa velhacaria estabelecidos pelo chefe quanto esse negócio dos prazeres do labrego de Lutécia* , diz a seu amigo que ele queria, com efeito, jantar com prostitutas.

– Escuta, – respondeu Sernenval – concordo, inclusive te servirei de introdutor como prova de meu modo filosófico de pensar sobre esse assunto, mas por uma delicadeza que espero não ma censures, pelos sentimentos que devo, em resumo, à minha mulher e que não está em mim dominar, permitirás que eu não partilhe de teus prazeres; eu os proporcionarei a ti, e ficarei nisso.

Desportes zomba um instante de seu amigo, mas vendo-o decidido a não se deixar de modo algum enveredar por esse caminho, a tudo consente, e partem.

A célebre S. J. foi a sacerdotisa no templo da qual Sernenval imaginou sacrificar seu amigo.

– É de uma mulher segura que precisamos, diz Sernenval – de uma mulher honesta; esse amigo, para o qual imploro vossos cuidados, está em Paris por pouco tempo apenas; ele não gostaria de levar más recordações para sua província e lá arruinar vossa reputação; diga-nos com franqueza se tendes o que ele precisa e o que desejais a fim de proporcionar-lhe o deleite.

– Ouçam, – retoma S. J. – bem vejo a quem tenho a honra de me dirigir, não são pessoas como vós que eu engano; vou, portanto, falar-vos como mulher honesta, e meus procedimentos vos provarão que eu o sou. Tenho o que vos interessa; trata-se apenas de pagar o preço justo, é uma mulher encantadora, uma criatura que vos arrebatará assim que a escutardes… é, enfim, o que denominamos um banquete de padre, e vós sabeis que a essas pessoas sendo meus melhores clientes, não lhes dou o que tenho de pior… Faz três dias que o bispo de M. por ela deu-me vinte luíses, o arcebispo de R. fê-la ganhar cinqüenta ontem e, ainda nesta manhã, ela me valeu trinta do coadjutor de… Eu vô-la ofereço por dez, e isso, na verdade, senhores, para merecer a honra de vossa estima; mas é preciso ser pontual no dia e na hora, ela está sob o controle do marido, e de um marido ciumento que só tem olhos para

* Cidade gaulesa sobre cujas ruínas edificou-se Paris. (N. dos T.)

ela; só podendo gozar instantes furtivos, é necessário não perder nem um minuto daqueles que tivermos combinado…

Desportes regateou um pouco; nunca uma prostituta fez com que se lhe pagasse dez luíses em toda a Lorena; quanto mais ele procurava baixar o preço, mais ela elogiava a mercadoria; em resumo, ele acabou por concordar e, no dia seguinte, dez horas em ponto foi a hora marcada para o encontro. Sernenval, não desejando de modo algum entrar a meias nesse divertimento, não concordou com um jantar, em troca do qual haviam combinado essas horas de prazer de Desportes, muito satisfeito por resolver tal assunto bem cedo para poder ocupar-se o resto do dia de outros deveres mais essenciais. Soa a hora; nossos dois amigos chegam à casa de sua encantadora alcoviteira; um boudoir, onde reina apenas uma luz tênue e luxuriosa, guarda a deusa, lugar onde Desportes vai oferecer em sacrifício.

– Felizardo filho do amor, – diz-lhe Sernenval, empurrando-o para o santuário – voa para os braços voluptuosos que a ti se estendem, e só depois me vem falar de teus prazeres; regozijar-me-ei por tua felicidade, e minha alegria será ainda mais pura porque não serei absolutamente invejoso.

Nossa catecúmena aparece; três horas inteiras mal bastam à sua homenagem; ele retorna, enfim, para assegurar a seu amigo que em sua vida nada viu de semelhante, e que a própria mãe dos amores não lhe teria proporcionado tantos prazeres.

– Ela é, portanto, deliciosa – diz Sernenval, meio inflamado.

– Deliciosa? Ah, não encontraria expressão que te pudesse reproduzir o que ela é, e mesmo agora que a visão deve esvanecer-se, sinto que não há pincel capaz de pintar as torrentes das delícias que me inundaram. Ela acrescenta às graças que recebeu da natureza essa arte tão sensual que lhes confere validade; conhece um certo tempero, possui no gozo tão real ardor que ainda me encontro inebriado… Oh! meu amigo, experimenta, rogo-te, por mais habituado que estejas às belezas de Paris, estou bem seguro de que me confessarás que nunca alguma outra valeu, a teus olhos, o preço desta aqui.

Sernenval, sempre firme, contudo emocionado por certa curiosidade, pede a S. J. para que faça passar essa moça diante dele, no momento em que sair do aposento… Ela consente, os dois amigos mantêm-se de pé para a poder observar mais, e a princesa passa com altivez…

– Pelos céus, – Sernenval transtorna-se quando reconhece sua mulher – é ela… é essa pudica que, não ousando descer dos seus aposentos por pudor diante de um amigo de seu esposo, tem a impudência de vir se prostituir em tal casa.

– Miserável! exclama, furioso…

Mas é em vão que tenta se lançar sobre essa pérfida criatura; ela o reconhecera bem no momento em que foi vista, e já ia longe da casa. Sernenval, num estado difícil de expressar, quer incriminar S. J.; esta se desculpa por sua ignorância, ela assegura Sernenval que há mais de dez anos, isto é, bem anteriormente ao casamento desse infortunado, essa jovem criatura participa de encontros em sua casa.

– A celerada!, – exclama o infeliz esposo, a quem o amigo tenta, em vão, consolar… – mas não, que isso termine! o desprezo é tudo que lhe devo; que ela seja para sempre alvo do meu, e que eu tenha aprendido a lição, por meio dessa cruel prova, que nunca é segundo a máscara hipócrita das mulheres que se as deve tentar julgar.

Sernenval retornou a sua casa; porém, não mais encontrou sua prostituta: ela já tomara seu rumo, e ele não se incomodou; seu amigo, não mais podendo suportar sua presença depois do acontecido, despediu-se dele no dia seguinte, e o infortunado Sernenval, isolado, com vergonha e cheio de dor, escreveu um in-quarto contra as esposas hipócritas, o qual não corrigiu em absoluto as mulheres, e que os homens jamais leram.

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