Negruinho – A casa dos budas ditosos – Lúxuria – João Ubaldo Ribeiro

Trecho retirado do livro a A CASA DOS BUDAS DITOSOS – LÚXURIA – João Ubaldo Ribeiro

A CASA DOS BUDAS DITOSOS
LÚXURIA
João Ubaldo Ribeiro

Página: 14

“….
A vinda dele, o nosso encontro, isso era o que eu ia contar, para finalmente
começar o depoimento. Sem frescura, basta de frescura. A vinda dele eu posso dizer
sem nenhum constrangimento, foi meio violenta, ou bastante violenta, se você quiser.
Ele brincava comigo e meu irmão Otávio, a gente gostava dele, minha avó de vez em
quando deixava que ele almoçasse com a gente, mas ele era somente um dos negrinhos
da fazenda, naquele bando de escravos que meu avô tinha. Não eram escravos
oficialmente, mas de fato eram escravos, e a maior parte vivia satisfeita, fazendo filhos
e enrolando meu avô. Figura interessante, meu avô peidão, pena que eu não tenha tido
a oportunidade, física e psicológica, de conviver mais com ele, não havia como,
embora ele gostasse de mim e eu dele. Acho que ele sabia que era enrolado o tempo
todo.

Acho que não, ele sabia, mas claro que não ligava, ele era uma postura
pragmático-egocêntrica ambulante, não pode mais existir gente como ele,
naturalmente.

Aí eu, sem quê nem para quê, muito de repente, cheguei para esse negrinho,
no pátio da quebra de coco de dendê, e disse:
“Hoje de tarde esteja na casa-grande velha, na hora em que minha avó estiver
dormindo. Sozinho e não diga a ninguém.” Ele estranhou e disse que não podia
porque ia ter de catar ouricuri com a mãe e ficou revirando os olhos para cima e
levantando os pés como se marchando sem sair do lugar e esfregando as orelhas com
uma careta, como se quisesse removê-las da cabeça. “Mentira”, disse eu, “mentira sua,
hoje é domingo.

Você vai, ou eu conto a meu avô que você tomou ousadia comigo e ele manda
lhe capar, como mandou capar finado Roque, seu tio, você sabe que meu avô mandou
capar ele, porque ele se ousou com uma rapariga dele.” E ainda dei um tapa forte,
estalado mesmo, na cara dele. Ele estremeceu e, se preto pode ficar lívido, ficou lívido.
Aliás, preto fica lívido, engraçado, você nota os lábios pálidos. Mas não disse nada, e
eu ainda fiz menção de dar outro tapa e só não dei porque não tinha planejado nada
daquilo e estava meio sem entender a situação e também me deu uma espécie de gana
de continuar batendo e ao mesmo tempo uma sensação desagradável, como se tivesse
medo de alguma coisa, não sei bem descrever esse momento. Em todo caso, depois de
marchar parado e esfregar as orelhas novamente, ele respondeu que ia, e eu senti uma
cócega funda me subindo das coxas para a barriga. Senti muitas outras vezes essa
cócega, até hoje sinto, mas nunca como nesse dia.

Quando ele chegou, parou bem embaixo da arcada do salão, com aquele
calção de saco de aniagem sem nada por baixo, vi logo que era uma ereção impetuosa,
uma força irresistível forçando o pano quase no meio da coxa esquerda, e ele cruzou
as mãos por cima, numa posição que agora eu talvez possa considerar engraçada, mas
na hora não me pareceu. Senti a cócega na barriga outra vez, mas ao mesmo tempo
não gostei. Não sei direito por que não gostei, mas na hora achei que foi porque fiquei
pensando em como era que aquele negrinho, aquele projeto de negrão, aliás, sabia que
tinha sido chamado para sacanagem. E se eu quisesse somente pegar passarinhos,
mostrar a ele os livros e lhe ensinar algumas letras do alfabeto? Só me lembro disso,
embora tenha certeza de que muito mais se passou atropeladamente por minha cabeça,
e meu fôlego ficou acelerado. Então veio o estupro, um inegável estupro. Domingo, e
o nome dele era Domingos. Rodei os olhos por aquelas paredes, apareceu na minha
cabeça padre Vitorino na aula de catecismo, dizendo que domingo queria dizer o dia
do Senhor, dominus vobiscum et cum spiritum tuum introibo ad altare Dei ite missa
est, aqueles latins do outro mundo e pareceu que um redemoinho me pegou, meus
olhos só viam em frente, meus ouvidos zumbiam, e eu falei, levantando a saia e
baixando a calçola:

– Chupe aqui.

Não me recordo do que ele respondeu de pronto, lembro que cuspiu para o
lado e disse que aquilo não, nada daquilo. Curioso, tudo está vindo de volta como
nunca antes. Lembro que olhei para baixo e vi no lugar geralmente designado por
nomes ridículos sob os quais a realidade é disfarçada, vi o que eu tenho que dizer com
todas as letras, porque de outro modo vou agir conforme tudo o que eu sou contra –
daqui a pouco eu consigo, é quase uma questão de honra, não vou ficar satisfeita se
não disser -, já razoavelmente emplumada e enfunada como um cavalo de combate,
me senti poderosa, marchei para ele, apertei-o no meio das pernas e, mordendo a
orelha dele, disse outra vez que ia contar a meu avô a ousadia dele. Chupe aqui, disse
eu, que não sabia realmente que as pessoas se chupavam, foi o que eu posso descrever
como instintivo. Falei com energia e puxei a cabeça dele para baixo pela carapinha e
empurrei a cara dele para dentro de minhas pernas, a ponto de ele ter tido dificuldade
em respirar. Não me incomodei, deixei que ele tomasse um pouco de ar e depois puxei
a cabeça dele de novo e entrei em orgasmo nessa mesma hora e deslizei para o chão. A
essa altura, ele já estava gostando e se empenhando e me encostei na parede de pernas
abertas e puxei muito a cabeça dele, enquanto, me encaixando na boca dele como
quem encaixa uma peça de precisão, como quem dá o peito para mamar, com um
prazer enormíssimo em fazer tudo isso minuciosamente, eu gozava outra vez.
Imediatamente, já possessa e numa ânsia que me fazia fibrilar o corpo todo, resolvi
que tinha que montar na cara dele, cavalgar mesmo, cavalgar, cavalgar e aí gozei mais
não sei quantas vezes, na boca, no nariz, nos olhos, na língua, na cabeça, gozei nele
todo e então desci e chupei ele, engolindo tanto daquela viga tesa quanto podia
engolir, depois sentindo o cheiro das virilhas, depois lambendo o saco, depois me
enroscando nele e esperando ele gozar na minha boca, embora ninguém antes me
tivesse dito como realmente era isso, só que ele não gozou na minha boca, acabou
esguichando meu rosto e eu esfreguei tudo em nós dois. É impressionante como eu fiz
tudo isso logo da primeira vez, porque foi mesmo a minha primeiríssima vez, e eu
nunca tinha visto nada, nem ninguém tinha de fato me ensinado nada, a não ser em
conversas doidas com as outras meninas do colégio, principalmente as internas, que
sempre ficavam meio loucas, como é natural. Grande parte dessas histórias não tinha
muito a ver com o que efetivamente é feito, com exceção das histórias sobre algumas
das freiras e outras alunas, que eu depois vi que eram mais ou menos verdade e hoje
sei que, na maioria dos casos, eram verdade. Suponho que devo ter um certo orgulho
disso, devo reconhecer sem modéstia que sou um talento nato, uma predestinada, uma
escolhida dos deuses, só pode ser algo assim. Não gosto de falar desta maneira, mas
não há como escapar, existe alguma coisa de inexplicável nisso, tenho de crer que
nasci sabendo, de certa forma. De certa forma não, eu nasci sabendo. Só pode ser, não
me pergunte como. Eu nasci sabendo.

Arrepios.

Depois disso, praticamente nunca mais nos falamos, você acredita? Nunca
mais nos falamos, mas continuamos a fazer as mesmas coisas e outras durante essas
férias todas, uma relação meio animalesca, que aproveitava as oportunidades, sem que
fosse necessário dizer nada. Era bom, era um dos muitos padrões que terminei
aprendendo e que tem seu lugar, tem muito seu lugar, estou com preguiça de explicar
por que e, além disso, quem tem sensibilidade aberta e aguçada nesse terreno sabe o
que eu quero dizer, e explicar a quem não tem adianta pouco ou quase nada. Só
fazíamos isso, e depois ele ia embora e, se acontecia passarmos um pelo outro em
lugares em que havia gente, era como se não nos víssemos. Não nos falamos mais e,
quando eu voltei, anos e anos depois e, quando eu voltava eventualmente depois de
bastante adulta, nós saíamos para pescar na canoa dele e trepávamos nus no meio do
mar. Isso só terminou mesmo depois que eu entrei em outra órbita e nunca mais
apareci. Sempre partíamos para nos agarrar automaticamente, quase todas as vezes em
que ficávamos sozinhos, a não ser nas raras ocasiões em que eu não estava a fim, e ele,
por alguma via telepática, sacava. Além disso, a iniciativa era sempre minha, ele ficava
esperando. Ainda nesse tempo de semi-adolescente e adolescente, eu ia com minha
avó ao Outeirão e era a mesma coisa, aperfeiçoada a cada encontro. Ele se viciou em
me chupar e eu em chupar ele e me dava muito prazer nós dois atrás das portas,
fazendo as coisas de maneira insubstituivelmente perigosa. Com o tempo, ainda nessas
férias em que começamos, ele passou a botar nas minhas coxas, e a gente aprendeu a
sincronizar o gozo, e eu fazia questão de que ele recuasse um pouco os quadris para
gozar nas minhas coxas. Fiquei uma especialista nessa prática, até hoje acho que é
muito bom em certas circunstâncias que não sei enumerar, mas sinto quando elas se
apresentam. O homem não pode gozar fora, não pode cometer o pecado de Onan,
que, como você sabe, não foi se masturbar, mas ejacular no chão, em vez de
emprenhar devidamente sua cunhada viúva, se não me engano era a cunhada viúva, ou
uma outra parenta em situação semelhante. Está no Velho Testamento, onde, aliás,
como eu já disse, estão muitas outras coisas habitualmente denunciadas como
reprováveis, que os padres e pastores fingem que não vêem. Os padres, em suas
bíblias, disfarçam as referências de Salomão com notas de pé de página, distorções de
sentido e trocas de palavras. É possível que eu tenha alguma fixação mórbida nisso,
agora talvez esteja notando indícios; curioso, nunca tinha me dado conta. O fato é que
amantes, concubinas e por aí vai são bastante encontradiças no Velho Testamento,
todo mundo sabe disso e continua com as pregações santimoniais a que até hoje não
me acostumei. É capaz dessa história de onanismo querendo dizer masturbação haver
sido inventada por eles, para não terem que admitir as relações hoje espúrias, que a
tradição relatada mostra. Uma vez li um conto de Isaac Bashevis Singer em que ele se
referia ao pecado de Onan de maneira correta e afirmava que, quando o homem
ejacula no chão, um diabinho é gerado. Pode ser, pode ser, o fato é que não está certo.
Na hora de gozar, tem que recuar os quadris e não privar a moça dessa irrigação tão
rica em significados e símbolos, tão misteriosa, afinal. Aconselhei várias outras
meninas sobre isso e sempre disse a elas: o homem que não goza nelas não merece
confiança. Ou então é um inepto, que precisa ser treinado. Eu nunca deixei de gostar,
sempre adorei, até porque é geralmente em pé, ligeiro e escondido, é muito bom, por
trás ou pela frente, evoca bons tempos, é meio peralta e muitas outras coisas,
dependendo de cada uma e do momento. Enfim, é uma opção entre muitas, que não
deve ser desprezada.

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